A NOITE
A NOITE
A noite é minha amiga e, ao mesmo tempo, uma provocadora,
pois não me deixa descansar como é suposto, embora na minha idade não precise
de tantas horas de sono. Quantas vezes chego à cama com vontade de me
aconchegar, dar graças por mais um dia vivido em harmonia, e fico à espera que
o sono chegue, fazendo uma revisão do dia, e programando o seguinte. É nessa
altura que posso, repente, despertar, e ser levada a discorrer os pensamentos
que vão surgindo. O corpo pede repouso, mas a mente apodera-se do momento e,
logo vejo que a cama já não me apetece! Ao mesmo tempo, há uma certa excitação
quando sinto que tenho de ir para o meu canto, e deixar que os temas aflorados
se desenrolem. O silêncio, com a sua inteira disponibilidade, permite-me
saborear a sensação de deixar que as palavras se vão formando, e expressando
este sentir que, sem ser transcendente, é especial, pois não tem outro
propósito senão deixar fluir uma energia tranquila e, ao mesmo tempo assertiva.
Este dia que acabou, mostrou-me como, até que ponto,
devemos acreditar no sentir mais profundo, em vez de nos guiarmos pela razão. O
que sentimos é a nossa verdade, mas somos, por vezes, levados pelas informações
que nos vão chegando, ou que afloram à mente, submetidos a uma vontade, de
certo modo alheia. As acções acabam por ser programadas de acordo com o suposto
ideal, mas quando conluiadas, vêm-nos mostrar que o sentir tinha sido mais
favorável… As nossas fragilidades acabam por vir ao de cima, tendo de as
aceitar, aproveitando as lições apresentadas. As certezas também, nem sempre
são as melhores companheiras, e não vem mal ao mundo viver experiências que nos
ensinem o que temos ainda que aprender. Cada circunstância tem o papel de
mostrar à evidência o que precisamos de aprender, pois a sabedoria é feita de
experiências, e oportunidades, que se podem aproveitar para seguir mais
seguros.
Como disse, a noite é minha amiga, e tiro partido dos
momentos que me oferece, e que me levam a delinear esta prosa simples e sincera,
que apresento aos que estão neste grupo de almas, e que fazem o favor de
colaborar para o processo evolutivo em que me encontro. A apetência para
formular os temas que vão dando à costa, são a forma mais directa de partilhar
sentires, vivências ocasionais, ou oportunas. Como não é possível programar
convívios, em que nos olhamos olhos nos olhos, e trocarmos abraços, a escrita
passou a ser o canal ideal, para que se mantenha uma união neste círculo de
energia, onde vamos retemperando as forças, e trocando algumas impressões para
que o caminho se possa continuar a fazer com alegria, confiança e determinação.
Chegado o momento de, por fim, dar ao corpo o tempo de
pausa, deixando que o sono venha e os sonhos se apresentem naturalmente.
OM
SHANTI OM

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