VER
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Apesar de viver muito perto do aeroporto Humberto Delgado, não ouço o barulho dos aviões. No entanto, da minha janela, quando lá me sento ao fim da tarde, vejo-os levantar voo em direção ao norte, partindo do princípio que é para lá que se dirigem, embora sempre possam virar a sul mais adiante!
Imagino as viagens que farão, e de que tenho as minhas próprias lembranças, quando nos era possível fazê-las com alguma regularidade. Foram bastantes, a nível de trabalho e de prazer, não só de avião, como de carro, comboio e até de barco, para além da Europa, e de Angola, onde nasci, e mais tarde, na Índia, porque nos primeiros tempos de casada, cheguei a viver em Goa e Diu, e mais tarde, em Moçambique, quando o trabalho do meu marido o levou para lá. Ali, tivemos a oportunidade de ter algumas experiências, quando fomos obrigados a mudar o rumo da nossa vida, tendo de ir para uma zona de guerra, no lago Niassa. Para chegar ao nosso destino, depois de aterrarmos na cidade mais próxima, tivemos de embarcar numa avioneta, que era a única maneira de alcançar o nosso destino, coisa bastante diferente de um avião, como devem calcular… Durante a estadia no lugar onde nos encontrávamos, tínhamos por hábito ir ver aterrar os grandes aviões Noratlas, encarregados do abastecimento daquela zona, tão isolada. As estradas estavam minadas, por isso só de avião se podia chegar lá, como um divertimento. O pseudo aeroporto era muito limitado e curto, por vezes, não conseguia aterrar à primeira! Como se estava em guerra, só podíamos sair dali de avião, e quando quisemos passar o Natal em família, longe dali, fomos num avião militar. Viemos a saber que esse dito avião tinha levado um tiro numa asa na viagem anterior…
Já se sabe, que me basta um momento de atenção, para que alguma coisa me chame a minha atenção, desencadeando memórias, e fazer o respectivo filme. É bom quando temos tanto para recordar e expressar os sentires que essas lembranças nos manifestam, podendo partilhá-las.
São assim, algumas das “estórias” desta minha longa vida, agora a ver os aviões à minha janela, ao fim duma tarde de Verão…

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