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terça-feira, fevereiro 26, 2008

A GUERRA "IN LOCO"



Continuando com as minhas estórias de vida, venho hoje contar-vos a minha ida para a guerra…
O meu marido foi destacado para ir comandar a Flotilha de Lanchas do Lago Niassa, uma das zonas de campanha de Moçambique (1967). Como podem calcular, o céu desabou-nos em cima! Tivemos de tomar decisões drásticas e dramáticas que iriam provocar problemas emocionais e psicológicos que, naturalmente, deixaram as suas marcas. Mais uma vez se iria ter de dar uma separação e avançar para situações de risco. Acabámos por mandar um dos nossos filhos para Lisboa e, contrariando ordens superiores, lá fomos de avião até àquela terra distante. Partimos para a cidade da Beira e de lá para Vila Cabral e, por fim, Metangula cujo acesso só podia ser feito com um avião pequeno (Cessna), visto que as estradas estavam cortadas por causa das minas.
Instalámo-nos numa casa que apenas tinha dois quartos, uma cozinha e uma casa de banho. A sala de jantar era num anexo feito em forma de palhota. Aliás, uma das razões porque não pudemos levar os filhos todos, era precisamente o facto da casa ser muito pequena e porque, quando fui para Lourenço Marques ter com o meu marido, o meu filho mais velho ter ficado em Lisboa com uma das irmãs, achámos em consciência que seria a altura dos avós mimarem o outro neto. Dividir irmãos nunca será uma boa ideia, mas foi a decisão que nos pareceu menos má e que, à partida, não deveria ser por muito tempo.
Lá nos instalámos para viver a experiência de um grande isolamento e com a guerra mesmo à porta. Quantas e quantas vezes estávamos a jantar e a ouvir tiros quando a aldeia era atacada. É curioso como nos habituamos a certas condições e conseguimos tirar partido das parcas condições de vida, condicionados pela proximidade do perigo e pelo próprio Lago que é imenso (curiosamente, 365x52 milhas). A camaradagem que se estabelece nestas situações é a ajuda fundamental para se aguentar as faltas próprias das condições em que nos encontrávamos. Fizemos amigos cuja amizade dura até hoje, e procurámos manter um nível de dignidade na aparência e nos modos. Na dita palhota, reuníamos com outros casais e alguns oficiais que se encontravam sem família, a melhor forma de escapar às depressões que a situação provocava.
Ocupava-me das crianças e da horta onde cresciam feijões, tomates, ervilhas, piripiri e tudo o mais que se semeasse pois a terra era generosa. Antes de ir, tive o cuidado de me prevenir com sementes e material de trabalhos manuais que me ocupassem o tempo. Nessa altura, aprendi a fazer croché e aperfeiçoei o tricô que já praticava naturalmente. Durante a convivência com as mulheres dos camaradas do meu marido aplicávamo-nos na confecção de sobremesas e deram-se muitas trocas de receitas que guardo religiosamente.
Infelizmente, durante a estadia neste local sofri a perda do meu Pai e também tivemos de mandar o nosso filho mais velho para Lisboa, uma vez que não estava a ter aproveitamento na escola pelo facto de ser o único a falar português convenientemente. Outra razão foi a minha Mãe estar a ter dificuldade em aguentar o meu filho sozinho. Os dois irmãos juntos suavizaram a situação, mas mesmo assim, tive de acabar por me ir embora antes do meu marido acabar a comissão de serviço. Regressei a Lisboa, via Lourenço Marques e lá acudi aos problemas o melhor que pude. Ainda esperámos uns bons meses até que voltássemos a estar novamente reunidos, agora definitivamente, em nossa casa! Começava outra etapa bem diferente, mas não menos agitada.
Fiquem bem!

domingo, fevereiro 17, 2008

SOLIDARIEDADE E LIBERTAÇÃO




A partir do momento em que a consciência do “Si” (Self) se torne realidade, as mudanças internas fazem-se com confiança no processo de desenvolvimento, passando nós a agir com cautela, mas sabendo que o crescimento não pode parar.
A solidariedade é um dos factores primordiais no avanço do Conhecimento e no sentido da realização pessoal. A partilha é um acto sagrado, e como tal, tem de ser feita de modo a proporcionar bem-estar e provocar sentimentos que se manifestem em alegria, que se expressa por meio de palavras, gestos e acções. Quando nos sentimos bem a fazer o que estamos a fazer é porque estamos no caminho certo e o que está certo significa que existe uma boa ligação com as mais altas esferas.
Na verdade, os Guias e os Mestres apontam-nos a direcção a seguir, mas somos nós a desejar e a conseguir seguir por aí! Pessoalmente tenho a agradecer aos Deuses que me acompanham, a oportunidade de ter vindo ao mundo e poder vivenciar o Amor Incondicional no encontro com os meus Pares. Pertencer a um Grupo de Almas que buscam a própria Paz e a levam aos seus semelhantes, deixa-me em êxtase por acreditar que vale mesmo a pena lutar pelos ideais mais elevados.
Obrigada por SEREM e ESTAREM comigo aqui e agora.
Fiquem bem e deixem que a chuva penetre na terra e o vento passe por entre os ramos nus das árvores que anseiam pela Primavera.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

SEGUE A DANÇA



O tempo que passámos na Estação Rádio Naval, na Machava, a cerca de 15 km de Lourenço Marques (agora chamada Maputo), deu para organizar a família e conviver como pessoas normais, numa sociedade de estilo africano em que a vida ao ar livre e despreocupada parecia não ser tocada pela guerra que se desenrolava a Norte. Os miúdos mais velhos começaram a frequentar a escola, enquanto as mais pequenas gozavam os prazeres de um amplo jardim e, ao fim de semana, refrescávamo-nos na piscina da Estação. Foi lá que as crianças deram as primeiras braçadas, aprendendo a nadar por conta própria e com a ajuda dos adultos que frequentavam aquele espaço.
Apesar das óptimas condições em que nos encontrávamos, comecei a sentir-me bastante isolada e deprimida, pois não tinha muito com que me ocupar, visto ter vários empregados, como era habitual naquelas paragens. De manhã ia às compras, destinava as refeições que o fantástico cozinheiro nos fazia, dava volta ao jardim e à horta, o que dava para ocupar toda a manhã. A parte da tarde era mais difícil de preencher porque não sou dada à vida social e a distância a que me encontrava, dificultava as idas à cidade e o meu marido estava sempre muito ocupado. A depressão acabou por tomar conta de mim e passei uns tempos bastante complicados, porque estes estados de espírito não eram muito bem aceites e tão compreendidos como agora. Um médico que me começou a tratar aconselhou-me a tirar a carta e foi, exactamente, isso que acabei por fazer, tendo comprado um carrito em 2ª mão o que me permitiu fazer as deslocações à cidade por conta própria. Tendo chegado à conclusão de que tinha de arranjar uma ocupação, resolvi procurar um emprego em part-time e foi o que fiz. Comecei a trabalhar da parte da tarde num escritório como tradutora e disse adeus à depressão. Já nesse tempo achava que a cura passa pela auto-cura...
Durante esta comissão (era assim que chamavam ao serviço fora do Continente), tivemos ocasião de fazer bastantes amigos que recebíamos na nossa casa e com quem partilhámos as alegrias e as dificuldades próprias de quem se encontra longe da família de origem e da sua terra. A solidariedade, nestas circunstâncias, é fundamental e essa nunca nos faltou felizmente.
Mas, como não há bem que sempre dure, ao fim de dois anos, o meu marido foi mandado para o Lago Niassa e o sonho de vida com a família unida, desfez-se em dois tempos... Mais uma vida que se esgotou quase sem darmos por isso para passarmos à seguinte, bem diferente e, no entanto, bastante aventurosa!
Esta resenha das minhas vidas, que vos tenho apresentado, servem para mostrar como a Vida é a nossa verdadeira Escola, aquela onde aprendemos a conhecer o que somos, como somos e a ter como espelho as circunstâncias e as pessoas que por nós passam. Os momentos em que mergulhamos com paixão e entrega totais permitem-nos crescer como Seres e estar de corpo e alma no processo que se vai desenrolando sem tempo e sem olhar para trás. Se, por ventura, quiserem rever estas vivências com outro ponto de vista, terão de voltar atrás aos primeiros textos deste Blog que criei a 13 de Novembro de 2005. Lá encontrarão outras estórias desta mesma vida!
Um abraço.
Fiquem bem!