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quarta-feira, dezembro 28, 2005

NATAL - UMA PASSAGEM

NATAL – UMA PASSAGEM

O Natal é uma época cheia de contradições. Fala-se muito no espírito de Natal, mas nem sempre nos damos ao trabalho de perceber o que isso quer dizer… Ouve-se, também, falar em solidariedade, distribuição de afectos feitos prendas e abraços e, no entanto, não é, senão, a sociedade de consumo a tomar conta de nós! Houve tempo em que, mal se aproximava esta época fatídica, entrava em depressão. Sim, depressão natalícia… Apercebia-me da sensação desagradável que era pensar nas compras que tinha, por obrigação, fazer, mais a preocupação para não deixar que a saudade dos ausentes se apoderasse de mim e de toda a família.
A minha vida, como tantas outras, tem sido pautada por separações físicas e emocionais, rupturas irremediáveis e toda uma panóplia de “sentires” que me sufocavam até ao limite do conforto. É verdade que temos de trabalhar o desapego e que, este, não se pode confundir com distanciamento ou frieza de sentimentos, mas….quanto custa!!! Tenho-me como uma pessoa positiva, até porque a vida me tem ensinado que a existência de dois pólos é uma realidade. Sempre que passo por dificuldades ou sofro desgostos, vêm em meu socorro as ajudas necessárias para ultrapassá-los e, por isso, a minha esperança não esmorece, senão, temporariamente. Pensar positivo não é estar sempre alegre, nem optimista. Para mim, é perceber as lições que temos de aprender e confiar na certeza das boas consequências. Há coisas que nos acontecem para as quais não encontramos uma razão plausível ao ponto de as acharmos mesmo injustas! Serão Karma, serão coisas necessárias ao nosso desenvolvimento, nesta passagem pela vida? Não tenho resposta e, para dizer em boa verdade, o melhor é não procurar demais e aceitar o que vem, esperando que aconteça uma ampliação de consciência necessária à compreensão e aceitação dos factos e seguir em frente sem vacilar, com o apoio dos Guias, Mestres e Anjos que nos assistem, tanto na Terra como no Céu.
Pois é. O Natal é uma passagem mais, um re-nascer com a determinação suficiente para levar avante a missão que nos cabe ou, simplesmente, viver a Vida o melhor que sabemos e podemos. Aproxima-se um novo ano que, certamente, virá recheado das contradições próprias dum sistema de valores que, nesta era, desejamos se tornem mais de acordo com as necessidades humanas, seja a nível material ou espiritual. É preciso mudar as mentalidades num sentido em que Paz e Harmonia se conjuguem para fazer desta Terra um sítio mais fraterno e agradável para todos e cada um.

Um grande abraço e votos de BOM 2006!

terça-feira, dezembro 20, 2005

BOAS FESTAS!!!

DE VOLTA A GOA

Terminada a comissão de serviço em Diu (5 meses), voltámos a poisar em Goa de armas e bagagens... O meu marido foi nomeado para um Aviso (navio de guerra) que patrulhava a costa. Curiosamente, fomos parar à mesma casa que, por acaso, estava livre. A minha barriguinha de mamã já se notava, para grande alegria minha! O calor de Goa era, de facto, insuportável, tanto mais que tínhamos de dormir com mosquiteiro porque as janelas não estavam protegidas com uma rede. Muitas vezes nos sentíamos impelidos a tomar um banho a meio da noite para conseguir dormir. Os mosquitos não dão tréguas!!! Para entrarmos para a cama, era preciso muita técnica... apagávamos a luz e, de lanterna em punho, levantávamos um pouco o mosquiteiro para entrar naquela “tenda”; de seguida entalávamos o dito e, com a lanterna, procurávamos algum clandestino que estivesse com segundas intenções... De outro modo, não conseguiríamos pregar olho com os zumbidos característicos, para não falar das eventuais picadas.
A vida retomou o ritmo habitual. Passámos o ano com alguma animação e frequentávamos as reuniões sociais próprias da situação vivida. O Governador e a mulher, promoviam estes actos sociais que eram agradáveis. Lembro-me de, numa dessas ocasiões, terem convidado o Artur Agostinho que contava umas anedotas muito engraçadas e bem contadas. Tive de recorrer a um costureiro local (os homens é que faziam esses trabalhos) para me confeccionar um vestido de cerimónia pois já não cabia nos que havia trazido. Acho que tenho uma foto em que o tenho vestido.
Convivíamos bastante com camaradas do meu marido e respectivas mulheres e, lá, conheci uma que, mais tarde, veio a ser a “culpada” da minha iniciação na prática de Yoga e com quem viajei e trabalhei durante vários anos. Coincidência?... Mas, essa estória, fica para mais tarde porque, na minha estadia por aquelas Índias, nunca ouvi falar de tal filosofia, talvez pela influência do Estado Novo ou porque Goa era, essencialmente cristã e, normalmente, não nos relacionávamos com hindus para além dos contactos na lojas ou mercados. Havia também um programa frequente de visitas à ilha de Angediva que, talvez não saibam, é a Ilha dos Amores, cantada por Camões, com vários convidados civis, militares e famílias para promoção das relações sociais com a sociedade civil. E, não é que, no dia em que participei nessa viagem, o navio esteve quase a encalhar?... Felizmente a coisa resolveu-se sem problema de maior, para além do susto e da excitação. Ali desembarcámos, numa visita curta pois a ilha, além de pequena, é deserta. Foi uma sensação especial pisar o mesmo terreno que o poeta, um gosto e um privilégio que, naturalmente, não esquecemos!
Como na vida nem tudo são rosas, em Fevereiro recebi a notícia da morte do meu sogro! Vieram-me dizer para que fosse eu a comunicar ao meu marido. “Para o bem e para o mal”... Cumpri esta espinhosa missão o melhor que pude, consolando-o da sua perda. Continuámos no nosso posto pois não havia outro remédio. É preciso que se diga que não havia as facilidades que hoje há em termos de deslocação e, para além da distância, é preciso ver que estávamos em “guerra”... Acho que, até agora, nunca se ouve falar do sacrifício que representavam estas guerras no tempo das nossas ditas colónias. As famílias passavam a vida em rupturas e separações, sem apoio de qualquer espécie e, por isso, só os mais afoitos ou saudosos, se aventuravam a deixar o conforto das suas casas, partindo à aventura e viver nas condições que se apresentavam, umas melhores do que outras, evidentemente. Da minha parte, sempre achei que o meu lugar era junto do meu marido, a não ser que fosse de todo impraticável ou não aconselhável. A verdade é que, por uma questão de feitio, tirava partido de todas as situações, procurando aprender usos e costumes das terras por onde passávamos. Acabei por fazer dessas vivências a minha grande escola. Os bons e os maus momentos foram vividos com a intensidade e a força próprias da juventude.
Para terminar, vos digo que esta comissão acabou para mim porque o navio em que o meu marido estava embarcado iria partir para a sua missão de fiscalização e, eu tive de regressar a Lisboa, não fosse o meu bébé nascer quando estivesse sozinha. A acrescentar a essa circunstância, também havia que ter em conta o facto do hospital local não ter as condições ideais; em caso de necessidade de cesariana, a anestesia disponível era a raquidiana... Felizmente nunca vim a precisar de nada disso. O regresso de avião teria de ser feito antes de atingir o 7º mês de gravidez, por isso, parti antes de chegar esse tempo, para mais uma aventura, desta vez em Lisboa onde o meu filho nasceu sem ter o Pai por perto, mas com o apoio incondicional dos meus Pais, família e amigos. Pai e Filho viriam a conhecer-se seis meses depois. A viagem correu bem apesar do meu estado. A tripulação do avião que eu conhecia, fez questão de me dar um bom lugar e, é preciso que se diga que não enjoo, nem quando estava de esperanças.
Seguiu-se um período de permanência em Lisboa que foi preenchido pelo nascimento de mais três filhos!!! A última também só conheceu o Pai com 8 meses... quando começou outra estória.

Fiquem bem.
Um grande abraço.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

BENÇÃO NUPCIAL

Resolvi explorar uma gaveta onde tenho as fotografias que se vão acumulando ao longo da vida, à espera da ocasião prometida para as arranjar... Apesar de tudo, posso considerar que não estão propriamente à “balda” porque as coloquei em envelopes, mais ou menos datados e referenciados quanto à circunstância. Quando os nossos filhos saíram de casa, achei por bem dar-lhes todas as fotografias em que se apresentavam como actores principais, daí não ter sido difícil dar com esta que vos apresento e que é o único registo que temos da tal benção nupcial junto do túmulo de S. Francisco Xavier. A data que consta no verso é Abril de 1959, creio que pouco depois de ter chegado. Curiosamente, este santo católico era bastante venerado em Goa e, o seu dia, festejado tanto por católicos como por hindus. Na altura, estava o corpo à vista o que se tornou um problema pois, nos dias festivos, as pessoas tinham por hábito beijar-lhe os pés!... Perante o desgaste provocado por esse costume, a Igreja resolveu por bem fechar o túmulo, só o abrindo de tanto em tanto tempo. Confesso que não sei como funciona agora com o governo indiano.
O meu marido tem muito desejo de voltar àquelas terras que, segundo relato de amigos, estão bastante mais desenvolvidas e quase transformadas no Algarve lá do sítio.
Eu não vibro com essa possibilidade, primeiro porque não sou saudosista, depois porque para fazer uma tão longa viagem teria de ter um tempo de permanência relativamente longo e sentir aquele apelo que, sempre, me empurra para fazer qualquer coisa. Registo os bons momentos, esqueço as dificuldades e vivo cada dia sem expectativas, mas com a esperança a chamar por mim.
Em breve vos contarei sobre o nosso regresso a Goa. Achei que esta foto merecia aparecer primeiro, já que não me tinha lembrado dela na altura própria.
Um abraço,
OM SHANTI

LEMBRANÇA

LEMBRANÇA

Resolvi explorar uma gaveta onde tenho as fotografias que se vão acumulando ao longo da vida, à espera da ocasião prometida para as arranjar... Apesar de tudo, posso considerar que não estão propriamente à “balda” porque as coloquei em envelopes, mais ou menos datados e referenciados quanto à circunstância. Quando os nossos filhos saíram de casa, achei por bem dar-lhes todas as fotografias em que se apresentavam como actores principais, daí não ter sido difícil dar com esta que vos apresento e que é o único registo que temos da tal benção nupcial junto do túmulo de S. Francisco Xavier. A data que consta no verso é Abril de 1959, creio que pouco depois de ter chegado. Curiosamente, este santo católico era bastante venerado em Goa e, o seu dia, festejado tanto por católicos como por hindus. Na altura, estava o corpo à vista o que se tornou um problema pois, nos dias festivos, as pessoas tinham por hábito beijar-lhe os pés!... Perante o desgaste provocado por esse costume, a Igreja resolveu por bem fechar o túmulo, só o abrindo de tanto e tanto tempo. Confesso que não sei como funciona agora com o governo indiano.
O meu marido tem muito desejo de voltar àquelas terras que, segundo relato de amigos, estão bastante mais desenvolvidas e quase transformadas no Algarve lá do sítio.
Eu não vibro com essa possibilidade, primeiro porque não sou saudosista, depois porque para fazer uma tão longa viagem teria de ter um tempo de permanência relativamente longo e sentir aquele apelo que, sempre, me empurra para fazer qualquer coisa. Registo os bons momentos, esqueço as dificuldades e vivo cada dia sem expectativas, mas com a esperança a chamar por mim.
Em breve vos contarei sobre o nosso regresso a Goa. Achei que esta foto merecia aparecer primeiro, já que não me tinha lembrado dela na altura própria.
Um abraço,

OM SHANTI

terça-feira, dezembro 13, 2005

FORTALEZA DE DIU

GRANDE AVENTURA

DIU

V
erdadeiramente, não se pode dizer que tive lua-de-mel de acordo com as regras, no entanto, a esta distância consigo considerar que, ir para Goa, para Diu e, novamente, para Goa, foi uma lua-de-mel no sentido em que vivíamos em permanente estado de exaltação, pois não podia ser de outro modo a existência que levávamos! Bem, o meu marido prometeu-me uma viagem aos Açores e, essa promessa ainda não foi cumprida... O Karma lá sabe...
Serve o que acima disse, como introdução à etapa “DIU”. Não me lembro do tempo que levou a viagem, mas não me esqueço do cansaço com que aterrei em mais uma terra estranha e, como não bastasse, mal chegámos, fomos convidados pelo Governador para jantar no palácio onde ele, a mulher e os filhos, habitavam. Não houve jeito de recusar, claro! Lá aparecemos como pudemos e o jantar decorreu sem incidentes de maior para além da dificuldade que tive em manter os olhos abertos ao serão. Compreende-se que, em lugares isolados, quando chega alguma cara nova não se perde a oportunidade do convívio. Passei a ser a segunda europeia nas redondezas... o que também conta.
Que dizer das instalações que nos calharam?... Bem, nos primeiros tempos ficámos num “suposto” hotel que já tinha visto melhores dias. O quarto era amplo, mas a casa de banho era do mais primitivo que possam imaginar! A sanita foi substituída por um chamado “general” (não sei se sabem, mas era assim que se chamava a um penico alto...), que um empregado fazia o favor de despejar todas as manhãs. Cortinas?... Não estavam em uso e, por isso, tínhamos que por uns cobertores para nos resguardarmos dos olhares e evitar que fossemos acordados de madrugada. O Sol, naquelas terras ergue-se cedinho. Por lá ficámos até que uma alma caridosa nos propôs uma solução que, evidentemente, acabámos por aceitar. As condições não eram propriamente ideais, mas pelo menos podia-se considerar que tínhamos uma casa. Eu explico.
Estava em construção um conjunto de casas destinadas aos guardas que trabalhavam para o exército (cipaios). Uma fileira de casas no rés-do-chão e outras tantas em cima. As debaixo estavam quase prontas, mas as de cima anda não tinham telhado. Deram-nos uma das debaixo cuja porta não tinha fechadura!!! À noite encostávamos uma cadeira para que se mantivesse mais ou menos fechada. De qualquer modo havia um guarda durante a noite para proteger os materiais da obra, por isso, sentíamo-nos seguros. Mobília, perguntam vocês?... Arranjaram-nos uma cama, uma mesa e cadeiras e algumas loiças. A casa de banho estava mais “apetrechada”, não havia “general”, mas uma pia pois os guardas preferiam uma posição menos ortodoxa para os apelos da natureza... Não vivia lá mais ninguém e, eu, passava o dia o melhor que podia e nunca dei por mim aborrecida pois sempre inventava coisas para fazer. Arranjámos um galinheiro improvisado e, a certa altura, deram-me uma cadelita branquinha a quem chamei “Chokri” que, na língua local, queria dizer menina. Fez-me boa companhia. À noite, depois do jantar, dávamos uma volta pelas redondezas, sempre com atenção não fosse aparecer alguma cobra (não havia luz na rua e, por isso, passeávamos de lanterna em punho) ou jogávamos às cartas em cima da cama. Tivemos de nos habituar a conviver com os uivos nocturnos de cães selvagens, chamados “adibos” que são parecidos com as hienas. Uma noite fomos visitados por eles, atraídos pelas galinhas e até conseguiram matar uma delas o que me impressionou bastante! O meu marido, nessa época, tinha uma moto que nos servia de transporte e para dar uns passeios. Diu é, praticamente, uma ilha pois tem um braço de mar que a mantém afastada de terra. Por lá existe uma lindíssima fortaleza construída pelos Portugueses. Um dos passeios consistia em percorrê-la e gozar a vista que se alcançava do ponto mais alto. De resto, para além da pequena cidade, pouco mais havia para visitar. Tanto quanto me lembro, a única estrada não teria mais do que 6 km até a uma aldeia indígena.
Frequentávamos um Clube criado pelos oficias do exército onde jogávamos ping-pong, badmington e um outro jogo de que não me lembro do nome mas que se jogava num tabuleiro com umas malhas que atirávamos como berlindes e bilhar. Este jogo entusiasmava bastante e chegámos a trazer a ideia para Portugal. A convivência com aquela tropa foi interessante na medida em que me fez aumentar consideravelmente o meu léxico verbal... De vez em quando pediam-me desculpa pelo à vontade, mas eu não ligava ao assunto pois, na verdade, era uma ignorante quanto ao significado das palavras que escapavam no calor das “refregas”.
Chegámos a Diu em Maio, ou seja, muito perto do começo da monção que é o tempo das grandes chuvas. Aconteceu que, numa noite, o meu marido foi chamado à capitania porque, com as primeiras chuvas, a corrente daquele braço de mar ficou de tal maneira forte que arrastou consigo uma das lanchas que ainda não tinha sido posta em terra. Fiquei sozinha, entregue ao guarda da obra. Chovia que Deus a dava e os trovões ecoavam pelas casas vazias. Habituada a África, não estava assustada pois sentia-me protegida dentro de casa. O guarda é que, a certa altura veio para ao pé de mim pois ele, sim, estava a tremer de medo!!! Um episódio que ficou na minha memória, tal como aquele em que tive, pela primeira vez, tratar do meu marido quando teve um ataque de paludismo. Sabem como são os homens quando estão doentes... Lá consegui chamar o médico e, depois, um enfermeiro para lhe dar as injecções necessárias. Tudo acabou em bem, felizmente, e a nossa vida retomou o seu rumo normal. A monção trazia um problema: os alimentos que nos chegavam por avião ou por barco encontraram duas grandes dificuldades, os navios não atracavam porque não havia porto. Com a agitação do mar não era possível encostar a lancha para proceder ao desembarque da mercadoria e, o aeroporto, passava a maior parte do tempo alagado e os aviões que forneciam parte dos alimentos, não podiam poisar. Passámos um mês a comer sardinhas e atum em lata, arroz e pouco mais. As poucas batatas que tínhamos eram uma preciosidade que guardámos para variar o menu. Com a brincadeira, ganhei uma anemia que se agravou pelo facto de, entretanto, ter ficado grávida do meu primeiro filho, compensada com a alegria de saber que íamos ser pais, algo por nós imensamente desejado.
Apesar das circunstâncias e das aventuras, adorei Diu. O clima era bem melhor do que o de Goa e a luz daquela terra ficou para sempre gravada na minha memória. Para terem uma ideia, lembra a luz de Lisboa. Terminada esta comissão, voltámos para Goa, mas essa parte contar-vos-ei no próximo capítulo.

Fiquem bem!




sábado, dezembro 10, 2005

AO SOL PÔR...

EMBARAÇO

Aproveitando um tempo livre no meu trabalho, resolvi dedicar-me à continuação do texto que havia começado em casa e que dá seguimento às minhas estórias de vida. Dei por terminado mais um capítulo, fiz uma pausa para dar atenção a outra tarefa, esperando voltar logo para o computador. Voltar, voltei, mas num abrir e fechar de olhos, o dito desligou-se porque, dizia “ele”, tinha havido um problema que punha em risco o próprio... Nunca mais o consegui “reanimar” por mais voltas que desse. Em desespero, falei com a pessoa que me tem dado uma mão nestas ocasiões e estou certa que, na segunda-feira, a coisa fica resolvida. Quando dependemos das máquinas é preciso contar com estes percalços. Felizmente tinha gravado o que acabara de escrever, por isso, é só uma questão de tempo para que retomemos o fio à meada. Os computadores são como algumas pessoas, têm manias ou, como diz um amigo meu, dá-lhes os nervos ou alguma “virose”!
Assim terminou mais uma semana de trabalho e o Natal aproxima-se a passos largos. Confesso que o que me dá prazer nesta época é fazer os arranjos em casa e no Centro, embrulhar algumas prendas com um toque pessoal e, na véspera, fazer as filhós com a ajuda da minha filha. Uma tradição familiar que não dispensamos. O resto passa-se tranquilamente com os filhos e os netos. A nossa Família já é demasiado grande para nos juntarmos com irmãos e sobrinhos! É um gosto assistir à alegria das crianças quando abrem os seus presentes. Não gastamos muito dinheiro pois o que é preciso é ir ao encontro dos gostos de cada um e, eles também sabem medir as suas exigências. São crianças muito amadas durante todo o ano, não têm necessidade de se compensarem nesta quadra! O Natal é mais uma ocasião para o encontro da Família e os gestos de solidariedade para com os mais carenciados. Fazemos os possíveis por fugir à fúria consumista, própria desta sociedade tão cheia de contradições e, na verdade o que conta mesmo é a atenção que damos ao estar e ao sentir de todos e cada um que nos rodeia.

Pedindo desculpa pelo embaraço, vos desejo um bom fim de semana.


OM SHANTI
(PAZ E HARMONIA)

segunda-feira, dezembro 05, 2005

TEMPO DE ESPERA

Enquanto não chega a oportunidade para continuar a contar-vos as minhas estórias, apresento-lhes mais uma mensagem daquelas que vou captando sempre que a ocasião e a necessidade acontece. Aproveito para dizer que estou ao dispor para debater algum tema que vos interesse, aceitando o diálogo que se possa estabelecer no contexto em que esta prosa se insere. Como verificam pelo meu perfil, a minha onda é filosófica dentro do Yoga Integral. A minha experiência de vida é um reflexo dessas ideias com as quais contactei bastante mais tarde, mas que, vieram ao encontro da minha maneira de ser e de estar.
A talhe de foice vos digo que o ponto em que vão os acontecimentos aqui narrados, se passa nos anos 60. Assim poderão melhor perceber a época de que vos falo.


“Para que as mudanças aconteçam é preciso ser persistente e ter força para avançar e, ao mesmo tempo, ganhar confiança. Atingindo um estado de plenitude alcança-se a maturidade que nos permite fazer o que temos que fazer e ser o que o que somos. Sempre que uma nova etapa começa, reforçamos os laços do Amor incondicional que nos deixa viver essa iniciação com alegria e determinação. A intenção é o factor primordial, pois, com ela se dá a harmonização da consciência para que o dentro e o fora já não se distingam.”
Até breve!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

VIDA NOVA

GOA

Depois de 36 horas de voo, esperava-me uma vida nova que em nada se pareceria com aquela que acabava de deixar. O meu marido/noivo, tinha arranjado uma parte de casa, algures em Pangim, creio que a zona para onde fomos morar se chamava D. Bosco. A casa era de umas senhoras Tailandesas que viviam de alugueres
a pessoal em comissão. Uma moradia simpática, com varanda e tudo! Contávamos com 3 divisões, dispostas em fila: sala comum com varanda, quarto e uma suposta cozinha que nem lava-loiça tinha. Casa de banho?...Bem, a casa de banho situava-se no fim da varanda que dava para o quintal e, para além do uso próprio, era lá que se lavava a loiça e, de lá, se trazia a água para uso doméstico. Na pseudo-cozinha, havia uma mesa sem cadeiras e, nas paredes, uns suportes onde ficavam pendurados os tachos e as panelas. Onde cozinhava?.... Pois... Talvez não acreditem, mas a menina de Lisboa, burguesa de raiz e transplantada para outro “planeta”, teve de aprender a usar um fogão a petróleo que era onde aplicava os seus parcos conhecimentos culinários. Como devem calcular, não foi fácil formar-me nas tarefas domésticas a que não estava, minimamente, habituada, quanto mais treinada. Para me ajudar tinha uma empregada indiana muito simpática, que mal falava português, mas bastante prestável. Máquina de lavar?... Tanque?... NADA! A roupa era tratada por um lavadeiro (as mulheres não faziam esse tipo de serviço) que, semanalmente, a levava e trazia já passadinha a ferro. De vez em quando, lá tinha eu que dar um jeito nas fardas do meu marido, cujo lugar o obrigava a andar fardado de branco. Com alguma dificuldade e a maior boa vontade, me fui desenvencilhando de todas as tarefas, aprendendo à minha custa e com a colaboração familiar e das vizinhas, donas da casa que, amavelmente, me ensinaram a arranjar peixe, etc. Nada disto foi dramático pois vivia sob uma aura de paixão e descoberta, um fascínio permanente, mesmo quando o calor e a humidade me perturbavam para além da conta.
Entretanto, conforme combinado, tivemos o privilégio de receber a benção nupcial na igreja onde está sepultado São Francisco Xavier; a nossa ignorância histórica não nos permitia saber o papel que aquele santo teve durante a Inquisição... O que nos ensinavam na escola trazia a informação mais conveniente à Igreja e ao regime. De qualquer modo a intenção conta e, naquele momento sentimo-nos compensados em relação ao casamento com noivo emprestado (casei por procuração, lembram-se?...). Um momento, de facto, marcante, até pela sua originalidade.
Mudar de vida, mesmo que a mudança seja agradável, por que não dizer, excitante, não é coisa de somenos. A alteração de hábitos, clima e tudo o resto, obriga a um esforço constante de adaptação que tem os seus custos. A juventude permite-nos, no entanto, algumas loucuras e os desafios propostos acabam por ser um estímulo para a criatividade. Divertia-me imenso a ir às compras num mercado de rua onde colhi uma série de conhecimentos sobre usos e costumes do foro alimentar próprios da região. As vendedeiras achavam-me graça porque gostava de meter conversa com elas, apesar do fraco português que entendiam e falavam, e de provar os frutos exóticos que não conhecia de África. Aprendi que se pode fazer um delicioso caril de Goa com meia dúzia de camarões e que havia arroz de várias espécies para além do costumeiro carolino (no tempo não se consumia a variedade “agulha”, nem outras que, agora, proliferam nos supermercados). Como já perceberam, era uma cozinheira interessada mas inexperiente. A minha Mãe, aquela mulher sábia e prevenida, tinha-me posto na bagagem um excelente e simples livro de cozinha (Isalita) que, ainda hoje, consulto e que, também, ofereci um exemplar à minha filha quando foi viver para casa dela. A vida passava-se, com bastante convívio, idas à praia ou a frequência do Clube Militar da Marinha onde nos reuníamos para mitigar as saudades da família com quem mantínhamos contacto através de cartas semanais, ocasião para desenvolver amizades, daquelas que ficam para a vida.
Estes primeiros tempos foram de pouca duração visto que o meu marido deixou o posto que exercia para passar a ocupar o de comandante das lanchas em Diu, ou seja, ao fim de um mês, voltei a fazer as malas e lá zarpámos de avião até Diu. O tempo lá passado foi uma experiência que dá para contar mais estórias, algumas bem extraordinárias...

Fiquem bem!

segunda-feira, novembro 28, 2005

SOLIDARIEDADE

De vez em quando “recebo” mensagens dos meus Deuses, aqueles de quem já vos falei. O contacto com energias elevadas permite-nos captar informações de utilidade pontual e que servem para muitas outras ocasiões. Partilho-as convosco pois, na verdade, não me pertencem, tal como a estória da minha vida que é um retrato como qualquer outro.
Aproveito para agradecer os vossos comentários pois me ajudam a fluir as ideias que vão surgindo passo a passo. Juntos fazemos uma corrente por onde passa o Amor incondicional.
Até breve.

OM SHANTI



SOLIDARIEDADE

A partir do momento em que a consciência do “EU” se torna uma realidade, as mudanças internas fazem-se com confiança no processo de desenvolvimento, agindo cautelosamente, embora sabendo que o crescimento não pode parar!
A solidariedade é um dos factores primordiais no avanço do Conhecimento e no sentido da Realização pessoal. A partilha é um acto sagrado e, como tal, tem de ser feita de modo a proporcionar bem estar e provocar sentimentos que se manifestam em alegria que se expressa em palavras, gestos e acções. Quando nos sentimos bem é porque estamos a fazer o que está certo e, o que está certo significa uma boa ligação com as mais altas esferas.. Na verdade, os Guias e os Mestres apontam-nos o Caminho, estão lá para nos ajudar, mas somos nós a desejar seguir por ele.

sábado, novembro 26, 2005

A TRAVESSIA NO TEMPO E NO ESPAÇO

A TRAVESSIA NO ESPAÇO E NO TEMPO


Uma pessoa nunca pode prever o que lhe vai acontecer e, se acreditarmos em Karma ou Destino, é certo e sabido que vamos fazer o que estava escrito nas estrelas. Por um lado é bom que se guarde algum mistério, senão, a vida ficaria bastante desinteressante. O que temos de viver e experimentar faz parte do mapa da nossa existência. O livre arbítrio é o que se nos oferece para que usemos escolher a forma como fazemos o nosso Caminho. Tudo isto para dizer que não me passava pela cabeça ir parar a Goa e, na verdade, foi exactamente isso que me aconteceu! Eu conto...
O meu namorado lá partiu, com grande pena
minha/dele. Mantivemos contacto regular através de longas missivas onde registávamos as “conversas” possíveis. Não havia telemóveis e, mesmo os telefones não funcionavam com a ligeireza de agora. Assentar no papel as emoções e os sentimentos, qual diário, fez com que permanecêssemos unidos no espaço e no tempo. Faltava o toque e som das palavras vivas, mas nem tudo se perdeu. Quando penso nestas coisas, vem-me à lembrança a ideia de que o tempo, realmente, não existe e que a separação física é um mero condicionamento que se ultrapassa com a força do pensamento e, sobretudo, do Amor.
A certa altura, talvez ao fim de um ano, numa dessas missivas vinha uma proposta: “E se eu ficasse na Índia outra comissão e tu viesses cá ter?...” Grande surpresa e grande excitação! Confesso que não me lembro muito bem de como passei aos meus Pais a mensagem, mas duma coisa estou certa, eles não devem ter achado graça nenhuma à ideia e, talvez, até pensassem que era coisa de adolescentes apaixonados. Curiosamente, nunca falei com eles sobre o assunto, mas, agora, que sou Mãe e Avó, posso imaginar o susto que apanharam e a tristeza que devem ter sentido com a perspectiva de uma nova separação. Podiam ter-me impedido de seguir o impulso de aceitar a proposta pois eu ainda era menor de idade (nesse tempo só se atingia a maioridade aos 21 anos e, eu, só tinha 19, portanto, precisava de ter o consentimento deles para me casar. No entanto, resta-me acrescentar que essa autorização já me tinha sido dada quando resolvemos casar pelo civil (por procuração) para que ele usufruísse de um subsídio, ainda antes de ter aparecido a ideia duma nova comissão. Aos meus Pais deve ter-lhes passado pela cabeça que esse casamento fazia parte duma estratégia, mas não... tudo teve a ver com o tal Karma/Destino. Quando decidi que, uma vez que ele não vinha, o melhor era eu ir lá ter, os meus Pais concordaram desde que me casasse pela Igreja antes de ir, não fosse eu cometer um grande pecado... Também é preciso referir que, naquela época, eu acreditava que só estando casada pela Igreja me sentiria casada. O meu “marido” ainda alvitrou a ideia de nos casarmos à chegada (tinha pedido ao capelão da Marinha para o fazer), mas os meus Pais acharam que isso era pedir de mais... O que eles devem ter aturado e sofrido! Apesar de maior, por via do casamento, os meus Pais mantinham uma certa ascendência sobre a minha vontade e não me deixaram ir embora sem ser realmente casada e não achei a força suficiente para os contrariar pelo muito Amor que lhes tinha e me tinham. Se fosse hoje...
Lá nos casámos, cada um para seu lado, eu na Igreja de São João de Deus em Lisboa e, ele, algures em Goa. Olhando para as fotos, vejo uma muito jovem noiva que mais parecia estar a fazer a comunhão solene! A cerimónia e a festa que se seguiu em casa, foi, apesar de tudo, alegre e, ao mesmo tempo, estranha e diferente, visto, no fim, ter ficado em casa sem o meu par! Recebi o carinho de toda a minha família e amigos que me acompanharam sem reservas naquela loucura. Já prometi a mim mesma que, na próxima encarnação, não me vou casar sem ter o noivo por perto. Para compensar, e se lá chegarmos, tencionamos re-casar quando fizermos 50 anos. Um bom propósito, não acham?
Esperei cerca de quinze dias para poder embarcar e partir de avião (não era ainda muito vulgar este meio de transporte) para aterrar no Aeroporto de Pangim em meados de Abril. A longuíssima viagem, fez-se sem sobressaltos, parando em vários sítios para reabastecimento. Passámos por Malta, Beirute (na altura, considerada a Paris do Oriente), Damasco, Bareihn e, por fim, Goa. Trinta e seis horas depois, lá estava o meu, agora, verdadeiro marido, à minha espera. Desci as escadas, meio atordoada e, se calhar, nervosa e o primeiro choque deu-se com a diferença de temperatura. O calor, a húmidade terríveis e a diferença horária fizeram com que percebesse que estava no outro lado do mundo. A emoção da chegada e do encontro fez com que esse mundo novo me agradasse, apesar de tudo. O que se passou durante a nossa permanência naquelas terras a partir desse memorável momento, contou com algumas peripécias que nada têm a ver com uma lua-de-mel nas Caraíbas.... Essa parte fica para a próxima.
Fiquem bem!

segunda-feira, novembro 21, 2005

domingo, novembro 20, 2005

QUEM CONTA UM CONTO...

“O ENCONTRO DAS ALMAS FAZ-SE À SOMBRA DUMA
ÁRVORE FRONDOSA, COM A RAÍZES BEM ASSENTES NA TERRA.
OS FRUTOS SACIAM A FOME E A SEDE DE APRENDER.”



CONTINUANDO...

Disse que tinha começado um namoro que acabou em casamento e é isso que vos vou contar agora.
Quase a fazer dezoito anos, fui acompanhar uma amiga a um baile no CNOCA (Clube de vela da Marinha, no Alfeite). Nesse tempo as raparigas não iam sozinhas aos bailes, principalmente quando havia algum rapaz na esteira... Não sou, não era, muito dada a actividades dessa natureza, embora gostasse de dançar, mas não foi grande o sacrifício pois a amizade é um valor que preso especialmente e a minha amiga estava, naturalmente, entusiasmada com a perspectiva dum possível namoro. Por acaso (será que existem?...), acabou por vir dar em casamento que, como o meu, dura até hoje! E, não é que, nesse baile, me foi apresentado um rapaz que insistiu em dançar comigo?... Já adivinharam?... Ainda hoje, passados 50 anos, continua a ser meu par, agora, nas danças da vida. A esta distância, a estória tem foros de romântica e, talvez, seja realmente. Tomando em consideração as regras antigas, o meu pretendente teve de pedir ao amigo interessado na minha amiga, que mo apresentasse, senão, nada feito!...
A partir desse dia, fui “perseguida” até aceitar o pedido de namoro e, esse sim, foi, de facto, romântico pois foi feito num passeio de barco à vela no Tejo. Confesso que, muito embora desconfiasse do interesse, que fui surpreendida e, mesmo, assustada com tão repentina ideia. Começar um relacionamento sem grande conhecimento mútuo não estava nos meus planos. Acabei por aceitar o desafio (cá está o velho impulso). Formalizámos o assunto no dia em que fiz 18 anos, com o consentimento dos meus Pais que, para além de respeitarem o meu desejo, também, acharam o rapaz simpático. O convívio com jovens sempre foi apanágio dos meus Pais, principalmente, da minha Mãe, ela própria bastante jovem de corpo e espírito, para além de ser muito sociável, bem mais do que eu que tinha fama de bicho do mato.
O namoro seguiu tranquilamente, com um misto de liberdade e alguma vigilância, de acordo com os preceitos da época. Ao fim de seis meses, o meu namorado anunciou-me a sua vontade e disposição de ir em comissão para a Índia, então, Portuguesa, pois isso seria uma mais valia para a sua carreira e uma oportunidade para ganhar mais. De notar que, nesses tempos, os oficiais de Marinha não eram diferentes do resto da população no que respeita a salários. Ganhava-se mal e as comissões representavam um aumento desse pecúlio por via da deslocação. Escusado será dizer que foi um choque esta notícia e até me passou pela cabeça acabar o namoro por me vir à lembrança os anos de separação quando o meu Pai voltou para África e nós tivemos de ficar por causa dos estudos. Essa circunstância pesou bastante na minha adolescência, apesar da minha Mãe ter sido um grande “Pai”.
A verdade é que acabei por me conformar e aceitar as boas intenções da vontade de partir e, quando chegou a hora, estava bem longe de me passar pela cabeça as consequências dessa longa viagem!... Fiquemos por aqui hoje. Para a próxima vos contarei o que se passou a seguir. Fiquem bem, vivendo as vossas estórias.

Um abraço,

Maria Emília

quinta-feira, novembro 17, 2005

Dia 17.11.05

NOTAS À MARGEM

Tenho uma certa tendência para ser disléxica quando escrevo no computador e, nem sempre, consigo que o texto saia limpinho, mesmo com o cuidado duma revisão. Não reparem, pois, se depararem com troca de letras e outros deslizes!... À partida, sou exigente, mas estou a aceitar esta forma de comunicação com a tónica na espontaneidade, com o rigor possível e com as ajudas caseiras.

QUEM CONTA UM CONTO...

Lisboa 13.11.05

QUEM CONTA UM CONTO...

Sempre funcionei por impulsos e, agora, que me disponho a criar um Blog, não é excepção. A minha Amiga Paula que, por acaso, há muito criou o seu (Era...uma...vez, se chama), nessa altura, desafiou-me para fazer o mesmo mas, volto a dizer, funciono por impulsos e, naquela fase, esta acção não fez clic na minha cabeça. Um dia destes, quando tratava da minha neta Mafalda (além de outras coisas que vão saber) sou terapeuta de Shiatsu) que anda nervosa com tantos testes na escola, “caiu-me” a ideia do Blog... Quando tal me acontece é certo e sabido que esse pensamento não me larga até entrar em acção, que é o que estou a fazer neste momento. Pelo facto de contar com uns bons anos e ter vivido muitas situações extraordinárias, acho que, talvez, achem graça às minha estórias. Quem conta um conto... acrescenta os temperos necessários para que a cena resulte interessante e a participação dos que lerem estes escritos venha a ser uma mais valia para a comunicação que se quer franca e ligeira. A partilha é um factor indispensável para o desenvolvimento pessoal e colectivo e, por isso, a exerci e exerço constantemente, sendo uma delas a escrita. Passo a contar um pouco do que sou e como aqui cheguei, para que possam situar-se sem, necessariamente, entrar em pormenores pessoais ou irrelevantes.
Nasci em África (Angola). Esse facto tem a sua importância visto que me deu, à partida, uma grande vantagem, na medida em que os meus horizontes se formaram alargados como a própria paisagem. Para além desse facto, a minha estrutura familiar ancestral, representa um suporte que me permitiu percorrer muitos caminhos e explorar mundos inesperados. Todas as vezes que se me apresentou um desafio, tinha de consultar aquilo a que ouso chamar “os meus Deuses”, ou seja, esperar pelo tal impulso irresistível que me levasse a responder afirmativamente à proposta. Fui habituada a não hesitar, a seguir em frente, mesmo quando a facilidade dos projectos não primavam pela evidência. Quando é preciso fazer... faz-se! Quando é preciso ir... vai-se! A confiança do bom sucesso da empreitada seria/é baseada na capacidade de inventar novos passos, ou dar os que forem precisos, e ser suficientemente flexível para torcer em vez de quebrar.
Cresci numa África distante, ordenada e rica e, apesar de lá ter saído bastante cedo para poder estudar (nesse aspecto a riqueza não passava por lá...), tenho as melhores memórias de sempre dos tempos em que corria veloz na minha bicicleta que, sem qualquer dúvida, me levava a viver as aventuras próprias de crianças livres e despreocupadas. Devo dizer que o meu encontro com Lisboa não foi dos mais alegres. De repente, vi-me fechada num 5º andar, com a minha preciosa liberdade perdida e um mundo completamente diferente daquele a que estava habituada. Tanta cerimónia!!! Tantas limitações de espaço e de movimentos!!! Todos quantos viveram em África sabem como a vida lá era bem mais arejada... No entanto, o ambiente familiar e a nova escola, permitiram-me uma adaptação relativamente fácil. Este novo mundo tinha a sua riqueza e amplitude, apesar das grandes limitações que a ditadura de então impunha.
No Verão passávamos as férias em S. Martinho do Porto que nos dava um cheirinho da África perdida, sem contar com o clima, claro... Voltei às bicicletadas, às conversas pachorrentas com os novos amigos e aos passeios/pic-nics inesquecíveis. A adolescência foi avançando com os respectivos estudos até que, os meus Pais se lembraram de nos mandar, à minha irmã e a mim para Londres afim de aperfeiçoar o Inglês. O meu irmão, um bocado mais novo, ficou-se pelo Colégio Militar. Não sei se repararam, mas eu disse “mandaram-nos”, não perguntaram a nossa opinião (nesse tempo era assim...)!
A esta distância parece algo sem grande importância mas, naquele tempo, não se ia para Londres estudar com a mesma facilidade com que hoje os jovens se deslocam com o mesmo fim. A minha Mãe, grande mulher e grande educadora, sempre nos ensinou que liberdade implica responsabilidade e confiança mútua. Lá fomos, então, entregues a nós próprias e a um respeitável lar de freiras católicas (não podia ser de outro modo...). A frequência dum ano lectivo, longe da protecção e aconchego familiar, foi gratificante e instrutivo mas, também, um pouco duro de aguentar as saudades. Era a primeira vez que me afastava da casa paterna. A minha irmã já tinha vivido essa experiência, quiçá mais dura ainda, quando esteve a estudar no colégio das Doroteias em Sá da Bandeira, bem longe da Lunda onde vivíamos.
Escusado será dizer que, ao regressarmos à santa terrinha, estranhámos a estreiteza de espírito reinante... Nova adaptação, nova vida. Tive de começar a trabalhar. Éramos um família burguesa, mas pouco indinheirada e, também, é verdade que não tinha à vista uma grande vontade de voltar a estudar. Comecei, então, a dar aulas de Inglês a criancinhas... A experiência foi relativamente curta pois, entretanto, comecei um namoro que acabou em casamento. (Devo confessar, igualmente, que o ensino daquela matéria não me entusiasmou por aí além. Não parecia ser a minha vocação e, no entanto, o futuro veio desmentir-me, mas isso é para vos contar mais adiante).
Quem conta um conto... Na próxima vez continuaremos estas estórias de vida. Vale a pena!
Agradeço a vossa atenção, esperando o vosso contacto e, se desejarem, pelas vossas estórias.
Um abraço
Maria Emília