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quinta-feira, novembro 17, 2005

QUEM CONTA UM CONTO...

Lisboa 13.11.05

QUEM CONTA UM CONTO...

Sempre funcionei por impulsos e, agora, que me disponho a criar um Blog, não é excepção. A minha Amiga Paula que, por acaso, há muito criou o seu (Era...uma...vez, se chama), nessa altura, desafiou-me para fazer o mesmo mas, volto a dizer, funciono por impulsos e, naquela fase, esta acção não fez clic na minha cabeça. Um dia destes, quando tratava da minha neta Mafalda (além de outras coisas que vão saber) sou terapeuta de Shiatsu) que anda nervosa com tantos testes na escola, “caiu-me” a ideia do Blog... Quando tal me acontece é certo e sabido que esse pensamento não me larga até entrar em acção, que é o que estou a fazer neste momento. Pelo facto de contar com uns bons anos e ter vivido muitas situações extraordinárias, acho que, talvez, achem graça às minha estórias. Quem conta um conto... acrescenta os temperos necessários para que a cena resulte interessante e a participação dos que lerem estes escritos venha a ser uma mais valia para a comunicação que se quer franca e ligeira. A partilha é um factor indispensável para o desenvolvimento pessoal e colectivo e, por isso, a exerci e exerço constantemente, sendo uma delas a escrita. Passo a contar um pouco do que sou e como aqui cheguei, para que possam situar-se sem, necessariamente, entrar em pormenores pessoais ou irrelevantes.
Nasci em África (Angola). Esse facto tem a sua importância visto que me deu, à partida, uma grande vantagem, na medida em que os meus horizontes se formaram alargados como a própria paisagem. Para além desse facto, a minha estrutura familiar ancestral, representa um suporte que me permitiu percorrer muitos caminhos e explorar mundos inesperados. Todas as vezes que se me apresentou um desafio, tinha de consultar aquilo a que ouso chamar “os meus Deuses”, ou seja, esperar pelo tal impulso irresistível que me levasse a responder afirmativamente à proposta. Fui habituada a não hesitar, a seguir em frente, mesmo quando a facilidade dos projectos não primavam pela evidência. Quando é preciso fazer... faz-se! Quando é preciso ir... vai-se! A confiança do bom sucesso da empreitada seria/é baseada na capacidade de inventar novos passos, ou dar os que forem precisos, e ser suficientemente flexível para torcer em vez de quebrar.
Cresci numa África distante, ordenada e rica e, apesar de lá ter saído bastante cedo para poder estudar (nesse aspecto a riqueza não passava por lá...), tenho as melhores memórias de sempre dos tempos em que corria veloz na minha bicicleta que, sem qualquer dúvida, me levava a viver as aventuras próprias de crianças livres e despreocupadas. Devo dizer que o meu encontro com Lisboa não foi dos mais alegres. De repente, vi-me fechada num 5º andar, com a minha preciosa liberdade perdida e um mundo completamente diferente daquele a que estava habituada. Tanta cerimónia!!! Tantas limitações de espaço e de movimentos!!! Todos quantos viveram em África sabem como a vida lá era bem mais arejada... No entanto, o ambiente familiar e a nova escola, permitiram-me uma adaptação relativamente fácil. Este novo mundo tinha a sua riqueza e amplitude, apesar das grandes limitações que a ditadura de então impunha.
No Verão passávamos as férias em S. Martinho do Porto que nos dava um cheirinho da África perdida, sem contar com o clima, claro... Voltei às bicicletadas, às conversas pachorrentas com os novos amigos e aos passeios/pic-nics inesquecíveis. A adolescência foi avançando com os respectivos estudos até que, os meus Pais se lembraram de nos mandar, à minha irmã e a mim para Londres afim de aperfeiçoar o Inglês. O meu irmão, um bocado mais novo, ficou-se pelo Colégio Militar. Não sei se repararam, mas eu disse “mandaram-nos”, não perguntaram a nossa opinião (nesse tempo era assim...)!
A esta distância parece algo sem grande importância mas, naquele tempo, não se ia para Londres estudar com a mesma facilidade com que hoje os jovens se deslocam com o mesmo fim. A minha Mãe, grande mulher e grande educadora, sempre nos ensinou que liberdade implica responsabilidade e confiança mútua. Lá fomos, então, entregues a nós próprias e a um respeitável lar de freiras católicas (não podia ser de outro modo...). A frequência dum ano lectivo, longe da protecção e aconchego familiar, foi gratificante e instrutivo mas, também, um pouco duro de aguentar as saudades. Era a primeira vez que me afastava da casa paterna. A minha irmã já tinha vivido essa experiência, quiçá mais dura ainda, quando esteve a estudar no colégio das Doroteias em Sá da Bandeira, bem longe da Lunda onde vivíamos.
Escusado será dizer que, ao regressarmos à santa terrinha, estranhámos a estreiteza de espírito reinante... Nova adaptação, nova vida. Tive de começar a trabalhar. Éramos um família burguesa, mas pouco indinheirada e, também, é verdade que não tinha à vista uma grande vontade de voltar a estudar. Comecei, então, a dar aulas de Inglês a criancinhas... A experiência foi relativamente curta pois, entretanto, comecei um namoro que acabou em casamento. (Devo confessar, igualmente, que o ensino daquela matéria não me entusiasmou por aí além. Não parecia ser a minha vocação e, no entanto, o futuro veio desmentir-me, mas isso é para vos contar mais adiante).
Quem conta um conto... Na próxima vez continuaremos estas estórias de vida. Vale a pena!
Agradeço a vossa atenção, esperando o vosso contacto e, se desejarem, pelas vossas estórias.
Um abraço
Maria Emília

2 comentários:

aldina disse...

obrigada maria emilia por esta magnífica partida... hoje, fiquei por casa estou de nariz entupido demais paar fazer bem o meu trabalho. Conto voltar a outras horas, que não as de hoje, mais de caordo com os meus horários!

Beijos e parabéns pelo Blog e pela sua deliciosa escrita!

Aldina D.

Anónimo disse...

Como sabe bem ler a Maria Emília nas ondas da net! E num exercício de imaginação, conseguimos ouvir a voz doce e firme de uma pessoa que sempre nos tranquiliza com a sua sabedoria e experiência de vida. Enche-me de alegria poder seguir as estórias da Maria Emília, fonte de inspiração para quem também está em movimento, num devir permanente, em busca da serenidade.
Obrigada!
Mónica