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terça-feira, dezembro 13, 2005

GRANDE AVENTURA

DIU

V
erdadeiramente, não se pode dizer que tive lua-de-mel de acordo com as regras, no entanto, a esta distância consigo considerar que, ir para Goa, para Diu e, novamente, para Goa, foi uma lua-de-mel no sentido em que vivíamos em permanente estado de exaltação, pois não podia ser de outro modo a existência que levávamos! Bem, o meu marido prometeu-me uma viagem aos Açores e, essa promessa ainda não foi cumprida... O Karma lá sabe...
Serve o que acima disse, como introdução à etapa “DIU”. Não me lembro do tempo que levou a viagem, mas não me esqueço do cansaço com que aterrei em mais uma terra estranha e, como não bastasse, mal chegámos, fomos convidados pelo Governador para jantar no palácio onde ele, a mulher e os filhos, habitavam. Não houve jeito de recusar, claro! Lá aparecemos como pudemos e o jantar decorreu sem incidentes de maior para além da dificuldade que tive em manter os olhos abertos ao serão. Compreende-se que, em lugares isolados, quando chega alguma cara nova não se perde a oportunidade do convívio. Passei a ser a segunda europeia nas redondezas... o que também conta.
Que dizer das instalações que nos calharam?... Bem, nos primeiros tempos ficámos num “suposto” hotel que já tinha visto melhores dias. O quarto era amplo, mas a casa de banho era do mais primitivo que possam imaginar! A sanita foi substituída por um chamado “general” (não sei se sabem, mas era assim que se chamava a um penico alto...), que um empregado fazia o favor de despejar todas as manhãs. Cortinas?... Não estavam em uso e, por isso, tínhamos que por uns cobertores para nos resguardarmos dos olhares e evitar que fossemos acordados de madrugada. O Sol, naquelas terras ergue-se cedinho. Por lá ficámos até que uma alma caridosa nos propôs uma solução que, evidentemente, acabámos por aceitar. As condições não eram propriamente ideais, mas pelo menos podia-se considerar que tínhamos uma casa. Eu explico.
Estava em construção um conjunto de casas destinadas aos guardas que trabalhavam para o exército (cipaios). Uma fileira de casas no rés-do-chão e outras tantas em cima. As debaixo estavam quase prontas, mas as de cima anda não tinham telhado. Deram-nos uma das debaixo cuja porta não tinha fechadura!!! À noite encostávamos uma cadeira para que se mantivesse mais ou menos fechada. De qualquer modo havia um guarda durante a noite para proteger os materiais da obra, por isso, sentíamo-nos seguros. Mobília, perguntam vocês?... Arranjaram-nos uma cama, uma mesa e cadeiras e algumas loiças. A casa de banho estava mais “apetrechada”, não havia “general”, mas uma pia pois os guardas preferiam uma posição menos ortodoxa para os apelos da natureza... Não vivia lá mais ninguém e, eu, passava o dia o melhor que podia e nunca dei por mim aborrecida pois sempre inventava coisas para fazer. Arranjámos um galinheiro improvisado e, a certa altura, deram-me uma cadelita branquinha a quem chamei “Chokri” que, na língua local, queria dizer menina. Fez-me boa companhia. À noite, depois do jantar, dávamos uma volta pelas redondezas, sempre com atenção não fosse aparecer alguma cobra (não havia luz na rua e, por isso, passeávamos de lanterna em punho) ou jogávamos às cartas em cima da cama. Tivemos de nos habituar a conviver com os uivos nocturnos de cães selvagens, chamados “adibos” que são parecidos com as hienas. Uma noite fomos visitados por eles, atraídos pelas galinhas e até conseguiram matar uma delas o que me impressionou bastante! O meu marido, nessa época, tinha uma moto que nos servia de transporte e para dar uns passeios. Diu é, praticamente, uma ilha pois tem um braço de mar que a mantém afastada de terra. Por lá existe uma lindíssima fortaleza construída pelos Portugueses. Um dos passeios consistia em percorrê-la e gozar a vista que se alcançava do ponto mais alto. De resto, para além da pequena cidade, pouco mais havia para visitar. Tanto quanto me lembro, a única estrada não teria mais do que 6 km até a uma aldeia indígena.
Frequentávamos um Clube criado pelos oficias do exército onde jogávamos ping-pong, badmington e um outro jogo de que não me lembro do nome mas que se jogava num tabuleiro com umas malhas que atirávamos como berlindes e bilhar. Este jogo entusiasmava bastante e chegámos a trazer a ideia para Portugal. A convivência com aquela tropa foi interessante na medida em que me fez aumentar consideravelmente o meu léxico verbal... De vez em quando pediam-me desculpa pelo à vontade, mas eu não ligava ao assunto pois, na verdade, era uma ignorante quanto ao significado das palavras que escapavam no calor das “refregas”.
Chegámos a Diu em Maio, ou seja, muito perto do começo da monção que é o tempo das grandes chuvas. Aconteceu que, numa noite, o meu marido foi chamado à capitania porque, com as primeiras chuvas, a corrente daquele braço de mar ficou de tal maneira forte que arrastou consigo uma das lanchas que ainda não tinha sido posta em terra. Fiquei sozinha, entregue ao guarda da obra. Chovia que Deus a dava e os trovões ecoavam pelas casas vazias. Habituada a África, não estava assustada pois sentia-me protegida dentro de casa. O guarda é que, a certa altura veio para ao pé de mim pois ele, sim, estava a tremer de medo!!! Um episódio que ficou na minha memória, tal como aquele em que tive, pela primeira vez, tratar do meu marido quando teve um ataque de paludismo. Sabem como são os homens quando estão doentes... Lá consegui chamar o médico e, depois, um enfermeiro para lhe dar as injecções necessárias. Tudo acabou em bem, felizmente, e a nossa vida retomou o seu rumo normal. A monção trazia um problema: os alimentos que nos chegavam por avião ou por barco encontraram duas grandes dificuldades, os navios não atracavam porque não havia porto. Com a agitação do mar não era possível encostar a lancha para proceder ao desembarque da mercadoria e, o aeroporto, passava a maior parte do tempo alagado e os aviões que forneciam parte dos alimentos, não podiam poisar. Passámos um mês a comer sardinhas e atum em lata, arroz e pouco mais. As poucas batatas que tínhamos eram uma preciosidade que guardámos para variar o menu. Com a brincadeira, ganhei uma anemia que se agravou pelo facto de, entretanto, ter ficado grávida do meu primeiro filho, compensada com a alegria de saber que íamos ser pais, algo por nós imensamente desejado.
Apesar das circunstâncias e das aventuras, adorei Diu. O clima era bem melhor do que o de Goa e a luz daquela terra ficou para sempre gravada na minha memória. Para terem uma ideia, lembra a luz de Lisboa. Terminada esta comissão, voltámos para Goa, mas essa parte contar-vos-ei no próximo capítulo.

Fiquem bem!




2 comentários:

aldina disse...

de tudo que li de Diu fico com a sensação de um espaço, mais do que selvagem, puro; com a sensação dum lugar e duma época em que o tempo é quase imaginário, que existe só para nos ensinar que adormecer e acordar são variantes dum sonho permanente! É muito comovente esta viagem por Diu, por tudo o que tem de real e de sonho, senti aquele alto contraste que só a Vida nos sabe ensinar - anemia e gravidez -!

Obrigada por existir Maria Emília por existir!

Maria Emília disse...

Pois Aldina, por ali o tempo tinha outro sentido e o espaço, apesar de limitado não se tornava claustrofóbico porque o ar e as pessoas eram puros.

Um abraço e obrigada também!