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terça-feira, dezembro 20, 2005

DE VOLTA A GOA

Terminada a comissão de serviço em Diu (5 meses), voltámos a poisar em Goa de armas e bagagens... O meu marido foi nomeado para um Aviso (navio de guerra) que patrulhava a costa. Curiosamente, fomos parar à mesma casa que, por acaso, estava livre. A minha barriguinha de mamã já se notava, para grande alegria minha! O calor de Goa era, de facto, insuportável, tanto mais que tínhamos de dormir com mosquiteiro porque as janelas não estavam protegidas com uma rede. Muitas vezes nos sentíamos impelidos a tomar um banho a meio da noite para conseguir dormir. Os mosquitos não dão tréguas!!! Para entrarmos para a cama, era preciso muita técnica... apagávamos a luz e, de lanterna em punho, levantávamos um pouco o mosquiteiro para entrar naquela “tenda”; de seguida entalávamos o dito e, com a lanterna, procurávamos algum clandestino que estivesse com segundas intenções... De outro modo, não conseguiríamos pregar olho com os zumbidos característicos, para não falar das eventuais picadas.
A vida retomou o ritmo habitual. Passámos o ano com alguma animação e frequentávamos as reuniões sociais próprias da situação vivida. O Governador e a mulher, promoviam estes actos sociais que eram agradáveis. Lembro-me de, numa dessas ocasiões, terem convidado o Artur Agostinho que contava umas anedotas muito engraçadas e bem contadas. Tive de recorrer a um costureiro local (os homens é que faziam esses trabalhos) para me confeccionar um vestido de cerimónia pois já não cabia nos que havia trazido. Acho que tenho uma foto em que o tenho vestido.
Convivíamos bastante com camaradas do meu marido e respectivas mulheres e, lá, conheci uma que, mais tarde, veio a ser a “culpada” da minha iniciação na prática de Yoga e com quem viajei e trabalhei durante vários anos. Coincidência?... Mas, essa estória, fica para mais tarde porque, na minha estadia por aquelas Índias, nunca ouvi falar de tal filosofia, talvez pela influência do Estado Novo ou porque Goa era, essencialmente cristã e, normalmente, não nos relacionávamos com hindus para além dos contactos na lojas ou mercados. Havia também um programa frequente de visitas à ilha de Angediva que, talvez não saibam, é a Ilha dos Amores, cantada por Camões, com vários convidados civis, militares e famílias para promoção das relações sociais com a sociedade civil. E, não é que, no dia em que participei nessa viagem, o navio esteve quase a encalhar?... Felizmente a coisa resolveu-se sem problema de maior, para além do susto e da excitação. Ali desembarcámos, numa visita curta pois a ilha, além de pequena, é deserta. Foi uma sensação especial pisar o mesmo terreno que o poeta, um gosto e um privilégio que, naturalmente, não esquecemos!
Como na vida nem tudo são rosas, em Fevereiro recebi a notícia da morte do meu sogro! Vieram-me dizer para que fosse eu a comunicar ao meu marido. “Para o bem e para o mal”... Cumpri esta espinhosa missão o melhor que pude, consolando-o da sua perda. Continuámos no nosso posto pois não havia outro remédio. É preciso que se diga que não havia as facilidades que hoje há em termos de deslocação e, para além da distância, é preciso ver que estávamos em “guerra”... Acho que, até agora, nunca se ouve falar do sacrifício que representavam estas guerras no tempo das nossas ditas colónias. As famílias passavam a vida em rupturas e separações, sem apoio de qualquer espécie e, por isso, só os mais afoitos ou saudosos, se aventuravam a deixar o conforto das suas casas, partindo à aventura e viver nas condições que se apresentavam, umas melhores do que outras, evidentemente. Da minha parte, sempre achei que o meu lugar era junto do meu marido, a não ser que fosse de todo impraticável ou não aconselhável. A verdade é que, por uma questão de feitio, tirava partido de todas as situações, procurando aprender usos e costumes das terras por onde passávamos. Acabei por fazer dessas vivências a minha grande escola. Os bons e os maus momentos foram vividos com a intensidade e a força próprias da juventude.
Para terminar, vos digo que esta comissão acabou para mim porque o navio em que o meu marido estava embarcado iria partir para a sua missão de fiscalização e, eu tive de regressar a Lisboa, não fosse o meu bébé nascer quando estivesse sozinha. A acrescentar a essa circunstância, também havia que ter em conta o facto do hospital local não ter as condições ideais; em caso de necessidade de cesariana, a anestesia disponível era a raquidiana... Felizmente nunca vim a precisar de nada disso. O regresso de avião teria de ser feito antes de atingir o 7º mês de gravidez, por isso, parti antes de chegar esse tempo, para mais uma aventura, desta vez em Lisboa onde o meu filho nasceu sem ter o Pai por perto, mas com o apoio incondicional dos meus Pais, família e amigos. Pai e Filho viriam a conhecer-se seis meses depois. A viagem correu bem apesar do meu estado. A tripulação do avião que eu conhecia, fez questão de me dar um bom lugar e, é preciso que se diga que não enjoo, nem quando estava de esperanças.
Seguiu-se um período de permanência em Lisboa que foi preenchido pelo nascimento de mais três filhos!!! A última também só conheceu o Pai com 8 meses... quando começou outra estória.

Fiquem bem.
Um grande abraço.

4 comentários:

aldina disse...

De facto era muito importante fazer-se/escrever-se a história das rupturas e desgostos afectivos e efectivos provocados pela guerra colonial em qualquer familia... no meu caso o meu pai partiu para Angola equando eu tinha 3 meses e morreu lá tinha eu 2 anos, nunca nos conhecemos!... Digamos que a perspectiva das consequências afectivas provocadas por uma guerra dentro dos vários tipos de relacionamentos é importante no sentido de aumentar a consciência geral acerca da desumanidade e da baixa inteligência que determina o recurso à violência e à arrogãncia extrema que leva à morte gratuita... Sou da opinião que os assuntos e as revelações têm que ver com uma boa dose de livre arbítrio... obrigada pela sua história que me permitiu esta reflexão e, em parte, este desabafo!

beijinhos!

Maria Emília disse...

Se tomarmos consciência das consequências das vivências dolorosas ou difíceis do nosso passado, podemos, com mais facilidade, guardar essas memórias sem rancor ou revolta e fazer delas simples páginas da nossa história. Só assim se pode avançar para um estado de supra-consciência.

Beijinhos e obrigada por Ser e Estar aqui.

Anónimo disse...

Conheço Gôa Damãu e Diu e conheço a casa onde viveu na Machava... Porque ficava bem perto de onde fiz tantas guardas (no Portão)... Interessante leitura... Nota-se no entanto um completo afastamento na sua escrita ao meio que a rodeava... Que foi afinal essas lindas Terras que a acolheram... Saudações de um ex;gr.FZ (Sydney)

Maria Emília disse...

Caro Amigo de Sydney,

Antes de mais, obrigada pela sua presença e o seus comentários.

A minha escrita é a expressão de "sentires" vividos em circunstâncias, por vezes, difíceis, porque muitas situações foram passadas num tempo de guerras, mais ou menos clandestinas. As terras têm o seu condão e marcam-nos naturalmente, mas são apenas o cenário onde permanecemos temporariamente.
Os meus contos são, sobretudo, de vivências que recordo tendo em conta que a memória tem as suas falhas.

Um abraço,

Maria Emília