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quarta-feira, maio 31, 2006

ENCONTROS IMEDIATOS

À BEIRA DO GANGES


Começámos o dia pela visita a dois templos. O primeiro tinha um tanque com água, dita sagrada, e mal entrámos aproximou-se de nós um sacerdote oferecendo-se para nos fazer umas rezas e ungir-nos à custa de uma quantas rupias. À saída colocou-nos uma pinta vermelha na testa, acompanhada De outro pedido de rupias... O segundo templo era menos primitivo, não tinha tanque e como trazíamos a pinta na testa ficámos isentos do peditório.
Pelo caminho visitámos o Ashram do Suami Sivananda e lá fomos atendidos por uma senhora muito simpática que nos deu o programa das actividades. Tínhamos que organizar bem as nossas visitas para não andarmos sempre de táxi o que fugia ao nosso curto orçamento. Curiosamente, o táxi, de vez em quando parava numa espécie de portagem e conseguimos perceber que passava por caminhos particulares e os donos teriam de ser informados das intenções dos viajantes. Quando chegámos ao hotel fomos abordados por um indiano bem parecido e bem falante na língua de Shakspeare, coisa rara por aquelas bandas. O engraçado é ele ter percebido que éramos portugueses! O homem tinha vivido em Goa, sabia o suficiente de português para perceber que língua falávamos. Normalmente, uma coisa que intrigava as pessoas, que fomos conhecendo, era entender de que terra éramos pois estavam mais habituados a francês, italiano ou espanhol. A nós dava-nos um certo gozo não pescarem nada do que dizíamos...
O velhote queria, por força, ser o nosso guia na visita aos yoguis da montanha e acabámos por fazer um acordo com ele. À hora do almoço, a minha amiga saiu para ir ao outro lado da ponte comprar fruta e o guia fez questão de a acompanhar com o seu chapéu de chuva que servia também para o Sol. Depois do almoço partimos para um memorável passeio à montanha, no meio da floresta. O tempo ameaçava chuva e ainda apanhámos uns pingos pelo caminho. É bom não esquecer que a monção ainda não tinha acabado a sua época. O senhor Singh, assim se chamava o nosso guia, lá foi dando explicações sobre as diversas árvores daquela floresta bastante densa. A meio da subida, atravessámos um mangueiral que, segundo o amigo Singh, tinha para cima de cem variedades de mangas e, eu cheia de pena que não fosse o tempo delas para matar saudades da minha terra natal, Angola. Chegados a um templo novo dum qualquer suami que estava na América, como não podia deixar de ser... sentámo-nos num muro a ver a bela paisagem e a descansar da subida íngreme. Eis senão quando, o sr. Singh agarra numa perna da minha amiga e diz que vai dar-lhe uma massagem Shiatsu. Perna acima, perna abaixo, cada vez mais para cima... e o marido sem tirar de lá os olhos!!! Seguiu-se a massagem do corpo pelo sistema de apalpões sistemáticos e nem o peito escapou à função. Eu estava com uma vontade louca de rir, ela com um ar preocupadíssimo por causa do marido e o homem não desarmava e ainda dizia que sem roupa e com óleo a massagem teria sido mais eficaz.... Por fim, virou-se para mim que, entretanto já tinha tirado as meias e os sapatos para ver se ele se contentava com os pés e as pernas, mas não tive sorte nenhuma... perna acima até à virilha. Foi um momento, ao mesmo tempo cómico e embaraçoso, apesar do senhor ter um aspecto respeitável e ser um óptimo massagista, com umas mão fantásticas. Valeu-nos a chuva que fez a sua aparição na hora “H” e lá nos pusemos a caminho da montanha. A chuva passou de moderada a torrencial e, quando chegámos a uma casa muito tosca, já íamos feitos uns pintos. A casa era de um dos tais yoguis da montanha que, mal nos viu, foi a correr vestir uma túnica cor de laranja por cima da tanga que trazia vestida; com ele estava um rapazinho vestido com roupas normais.
O nosso guia mandou-nos entrar e sentar numa esteira. A casa era um simples alpendre com vista para o vale, tapada com panos por causa da chuva que continuava a cair a potes. O yogui tirou um dos panos para deixar entrar mais luz e sentou-se de costas para a janela. Ele queria que ficássemos de frente para ele, ou seja, com a luz a dar nas nossas caras; nós mal víamos a cara dele, mas sentíamos a sua presença duma forma intensa. Iniciámos um diálogo, com a ajuda do guia, ficando a saber que vivia ali há dezoito anos e só de lá saía para se encontrar com algum colega. O mestre dele tinha morrido sete anos atrás com quase 90 anos. Passava os dias em meditação, passeava pela floresta, estudava as escrituras e ensinava os seus discípulos. A ideia que ele me dava era a de um Cristo vestido de cor de laranja. O guia explicou-nos que ele não recebia qualquer pessoa e que quem ele não achasse digno mandava logo embora, daí querer examinar-nos à luz pois, segundo o sr. Singh ele tinha muita facilidade em julgar rapidamente quem o visitava e algumas pessoas não eram bem intencionadas. Felizmente passámos no exame, de tal maneira que além de nos oferecer chá, nos convidou para lá passarmos a noite, caso chuva não parasse, prometendo, inclusivamente, cozinhar para nós!!! Devo confessar que a ideia não nos entusiasmou por aí além...
Já passava das seis e meia quando a chuva parou e nos preparámos para regressar, antes que escurecesse totalmente. Nestas zonas não há crepúsculo, por isso, a noite cai quase de repente. Deixei como oferta duas peças de fruta que coloquei no altar onde estava a fotografia do mestre dele. Depois de manifestarmos efusivamente os nossos agradecimentos pela hospitalidade, começámos o caminho de volta ao hotel, montanha abaixo. Chegámos, já noite escura, sãos e salvos de encontros com cobras e bostas de vaca que proliferavam na área e feita a travessia da ponte suspensa que abanava bastante com o vento que fazia. Banho, jantar e cama que era o que estávamos a pedir depois dum dia tão emocionante.

Fiquem bem!

sexta-feira, maio 26, 2006

PARAGEM NO TEMPO

Acordei relativamente cedo, mas fiz um esforço para dormir até perto das sete porque tinha tido uma noite bastante agitada, talvez pelo cansaço e porque o barulho da ventoinha por cima de mim me incomodava. Quando o marido da minha amiga veio bater-me à porta para irmos tomar o pequeno almoço, soube que ela estava cheia de febre. Resolvemos que o melhor seria levá-la ao médico para cortar o mal pela raiz. Depois do pequeno-almoço, contratámos um táxi que nos levou ao pseudo hospital de Rishikesh. O motorista levou-nos directamente a uma médica que a medicou com os comprimidos suficientes para aquele dia, com ordens para lá voltarmos no dia seguinte. Não é como cá que passam receitas e, depois, ficamos com as caixas cheias de pílulas; lá dão os comprimidos suficientes para o tratamento e pronto!
Passámos a manhã toda na conversa, fazendo companhia à doente. Almocei com o marido (a doentinha só queria fruta) e a seguir fomos dar uma volta até ao outro lado da ponte (vide foto acima) para comprar a dita fruta. Pelo caminho, passámos por filas de pedintes, uns leprosos, outros velhos e por muita gente a caminho dos templos e dos banhos no Ganges. Havia uns fotógrafos ambulantes que iam fotografando pessoas que faziam a sua pose no meio da ponte. Muito engraçado analisar e apreciar os costumes.
Voltámos ao hotel e a fruta foi servida. Estava ela a comer muito descansada, quando o marido, de repente, diz: “Está um macaco à porta da casa de banho!!!...”; pensei que ele estivesse a gozar, mas quando me virei naquela direcção... não é que estava mesmo?... Ficámos sem saber o que fazer, um pouco assustados pois o macaco era bem grande e via-se que vinha à pesca da fruta. A solução encontrada foi atirarmos uma banana para a casa de banho e, logo que ele correu para a apanhar, fechámos a porta. O pior é que ele não saía de lá nem por decreto! Lembrei-me, então, de atirar umas cascas para fora da janela e aí ele saltou lá para fora e nessa altura pudemos fechar as janelas da casa de banho. As janelas dos quartos tinham grades já para prevenir estes acontecimentos. Os macacos andavam por todo o lado com grande à vontade. Quando voltei para o meu quarto, lá estava o macaco com um amigo catando-se um ao outro alegremente no parapeito da janela do corredor. Os animais, como são protegidos, tomam conta dos espaços e não se preocupam com os humanos. Quando estivemos em Agra, havia uma aldeia perto com uma grande extensão de terreno que é conhecida pelo santuário dos pássaros que, no Inverno, vêm da Rússia e por lá permanecem. Dizem que é um espectáculo digno de ser visto.
A doença da minha amiga, fez com que se desse um interregno nas nossas andanças e eu confesso que me soube bem; de repente, parece que o tempo parou, ou deixou de contar e passou a haver espaço para estar a ler, para escrever ou, simplesmente, descansar. As doenças têm a sua razão de ser... Estive a ler até quase às seis e depois fomos dar uma volta antes do jantar. Estava uma temperatura agradável e lá fomos metendo o nariz nas lojecas que havia pelo caminho. Fomos andando em direcção a Rishikesh até chegarmos a um sítio de onde se avistavam as montanhas (estávamos no sopé do Himalaia) e um imenso vale com uma plantação de arroz. Os tons de verde eram variados, uma beleza; os grilos e os ralos cantavam ao desafio. Votámos ao hotel a horas de jantar. Por sugestão do Ramu (o criado faz-tudo) escolhemos comida chinesa, considerada o máximo do apuro no hotel. No fim tomámos um café do melhorzinho que havíamos bebido até à data.
Antes de voltar para a minha alcova ainda estivemos reunidos no quarto deles (não havia sala de convívio), todos a ler coisas sobre a Índia para ficarmos com a lição bem estudada. No dia seguinte teríamos de voltar à médica e, como ela estava bastante melhor pudemos começar a planear as visitas aos Ashrams do sítio, mas isso é outra estória.

Fiquem bem!

quinta-feira, maio 25, 2006

A CAMINHO DE RISHIKESH


O comboio era do tempo da outra senhora, como se costuma dizer, muito pior do que aquele que tomámos para Poona. Durante todo o caminho choviam coisas pretas o que nos impedia de ter as janelas abertas para não levarmos com elas em cima! No princípio da viagem ainda dava para observar o panorama que se ia desenrolando, bairros miseráveis que já não dava para estranhar, mas o que fez com que nos fartássemos de rir foi ver o espectáculo de dezenas de indivíduos a fazerem as suas necessidades à vista de todos! À nossa frente ia uma família indiana muito simpática: pai, mãe e uma filha crescida muito gira. O pai, logo ali tirou os sapatos e sentou-se no banco de pernas cruzadas. A certa altura, a mãe puxa dum farnel e o pai, continuando de pernas cruzadas, virou-se para o lado e preparou a mesa do repasto, caril de vegetais dentro dum saco de plástico, cebola crua, partida aos bocados, chapatis (pão indiano) e malaguetas. Lá comeram tudo à mão, não sem antes perguntarem se éramos servidos. Terminaram a refeição com pêros e arrumaram tudo muito arrumadinho, limparam as mãos a um lenço e a uma toalha e pronto! Sempre que os comboios param numa estação, começa a gritaria dos vendedores a anunciar os seus petiscos e bebidas e o mesmo se passou dentro das carruagens. Passam a vida a petiscar...
Como não podia deixar de ser, a rapariga, depois de jantar, meteu conversa comigo. Pergunta sacramental: de que país éramos e que língua falávamos. Conversámos um pouco, perguntava ela, perguntava eu e acabou por me dizer que ia a Deli às compras para o seu enxoval, uma vez que se iria casar em breve, com 19 anos. Foi engraçado e sempre deu para passar o tempo.
À chegada a Deli, já mortos de cansaço, tivemos a guerra dos carregadores e dos taxistas, mas lá conseguimos chegar ao hotel que, por azar, não tinha ar condicionado e estava um calor sufocante. O colchão da cama estava tão quente que mais parecia ter um saco de água quente. Janela aberta, ventoinha, banho frio e mal caí à cama foi tiro e queda. Acordei na manhã seguinte cheia de calor, porque a dita ventoinha tinha parado por falta de luz...
Depois do pequeno-almoço, lá seguimos para Rishikesh que, só vos digo que foi uma viagem simplesmente pavorosa. Quando “aterrámos” em Hardwar, a cidade sagrada à beira do Ganges, só me apetecia atirar-me para o chão e a pensar “Valerá a pena o sacrifício que estamos a fazer?...”
Quando chegámos à estação dos autocarros, tivemos logo a boa surpresa do nosso autocarro ser normal, ou seja, vulgar de carreira, não sei se percebem o que isso significa... Preparamo-nos psicologicamente para o pior e lá nos encaixámos como pudemos no meio de uma quantidade de gente, um calor insuportável (até comprámos uns abanicos) que fazia com que começássemos a suar em bica. Sentou-se a meu lado um homem que foi amável ao ponto de levar em cima das pernas a minha mala, visto que não havia onde a pusesse. Só mais tarde, depois da barafunda amainar, conseguimos empurrá-la para debaixo do banco.
Ao fim de uma hora e meia de sacudidelas e apitadelas, lá chegámos a 1ª paragem para os habituais xixis, comidas e bebidas. E, assim sucessivamente até chegarmos a Hardwar, felizmente, mais cedo do que o previsto. Ali, o pouco ânimo que levava, acabou-se duma assentada! Montes e montes de gente, moscas aos molhos, um calor insuportável e ainda tivemos de carregar com a bagagem até ao autocarro seguinte que, depois de ¾ de hora de espera, conseguiu levar-nos até Rishikesh, por um caminho ao longo do Rio Ganges que, devido à monção, corria muito barrento. Escusado será dizer que o que restava do meu moral esfumou-se em dois tempos pois aquela terra não se apresentava nada convidativa. Lá chegámos ao pseudo hotel de luxo (na óptica deles, claro…). A localização era óptima, um sítio muito bonito na margem direita do rio, rodeado de montanhas. Comecei, então, a sentir uma certa paz e desejosa por um banho que limpasse o cansaço e o desconforto de sete horas de viagem. Apesar do sono, resisti à tentação de me deitar para poder ir com os meus amigos fazer uma volta de reconhecimento.
À saída do hotel, a caminho da margem do rio, começava a fila de pedintes. Quando passávamos por eles cantavam “Hari Om, Hari Om, Hari Om” e, se lhes dávamos esmola, juntavam as mãos no peito em jeito de agradecimento. Fomos passando por vários templos com uma grande variedade de deuses um tanto ou quanto berrantes. Atravessámos uma ponte suspensa, suficientemente forte para poderem passar carros, de onde podíamos ter uma bela panorâmica do rio que corria veloz. Chegados à outra margem, sentámo-nos a observar o rio e o ambiente; assistimos ao banho de um velho sacerdote que teve o seu encanto e constatámos que tomar banho, mesmo em águas porcas, é um ritual que se repete, principalmente neste rio sagrado.
Voltámos ao hotel para jantar e digo-vos que os nossos sacrifícios foram compensados com uma bela refeição: guisado de cogumelos e tomate com arroz frito, do tipo xau-xau que estava uma delícia. Escusado será dizer que, depois de tal repasto fomos para a cama de papo cheio e felizes como perfeitos bebés, não sem deixar a escrita em dia. Apaguei a luz às 21.30, mergulhando num sono profundo e reparador para acordar pronta a viver novas experiências, novo banho de cultura, mas isso vos contarei no próximo encontro.

Fiquem bem!

domingo, maio 21, 2006

TAJ MAHAL




A viagem durou 5 horas – a meio houve as habituais paragens para comer e fazer xixi. Por acaso, surpreendentemente, o sítio da paragem era uma espécie de oásis do Turismo oficial. É que parecia mesmo um oásis porque tinha um jardim, no meio de toda aquela pobreza e porcaria! Desta vez ficámos num bom hotel, do género daquele onde estivemos em Aurangabad, mas este até ar condicionado tinha o que proporciona outro conforto e descanso. Depois de almoçar não resisti a fazer uma sesta porque estava, realmente, cansada da viagem. Fui acordada para embarcar numa visita turística. Alugámos um carro e lá fomos até ao túmulo do avô da Imperatriz Mumtaz – a tal do Taj Mahal. Muito bonito e via-se que era preparatório para o futuro túmulo da Imperatriz. Situado no meio dum jardim e à beira do Rio Jamuna (rio irmão do Ganges, segundo reza a tradição). O seu estado de conservação deixava a desejar, mas compreende-se que num país onde há tanta miséria, é difícil pensar na conservação de monumentos, embora ache que devia ser uma preocupação a nível mundial.
Naquele dia, também visitámos o Forte Vermelho, considerada a segunda melhor atracção depois do Taj Mahal. Novo mergulho na história. Fechámos o programa com chave de ouro ao transpormos a 1ª porta da entrada da maravilha que é o Taj Mahal. Nem queríamos acreditar que aquilo estava diante dos nossos olhos, que não era nem uma fotografia nem um postal!!! Que sonho de equilíbrio arquitectónico. Ficou na nossa memória e a imagem a experiência vivenciada naquele momento.
Montes e montes de gente por todo o lado, visto ser sexta-feira que é dia santo para eles. Naquele dia a entrada era grátis e daí a multidão que por lá se encontrava o que tornava complicado a movimentação dentro do edifício e mal dava para ver os túmulos que, curiosamente, não estavam centrados. É preciso ver que aquele monumento foi construído para a Imperatriz Mumtaz que morreu de parto. Segundo percebemos o marido não era para lá ficar, mas o filho que usurpou o trono ao pai, não esteve com mais aquelas e pô-lo ao lado da mulher sem se preocupar com a estética da coisa. O rapaz não era flôr que se cheirasse...
Permanecemos bastante tempo no local a gozar o panorama e, antes de voltarmos para o hotel, lá fomos “empurrados” para os armazéns. Para não fazer má figura comprei uma caixinha de mármore típica da região. No hotel é que fizemos algumas compras mais porque, por incrível que pareça, nos hotéis as coisas são mais baratas visto que não têm de dar comissão aos motoristas e, além disso, é mais agradável porque não temos ninguém atrás de nós. Demos uma saltada ao Holiday Inn mais próximo onde comemos qualquer coisa e regressámos num Rickshaw ciclístico, que nos proporcionou um passeio muito agradável ao fim da tarde. Antes de dormir consegui encaixar mais umas tantas coisas no meu saco de viagem que parece um poço sem fundo.
Estamos exactamente a meio da viagem e, podemos contabilizar 32 horas de caminho mais 12 de Lisboa até Bombaim, dois mil quilómetros percorridos, nem mais, nem menos!!!
No dia seguinte, dei-me ao luxo de ficar no quarto a tomar o pequeno-almoço e a ler coisas sobre Agra, a cidade onde está o Taj Mahal. Estava eu posta em sossego, quando entra pelo o quarto a dentro um batalhão de criados que vinham fazer a limpeza e à caça da gorjeta, claro! Fomos ao banco trocar dinheiro o que se tornou numa operação morosa; estávamos nós a preencher uma papelada quando fomos surpreendidos por um grandecissímo arroto... O chefe da secção tinha acabado de beber um copo de água e... trás, arrota!!! Com aquela gente é tudo à vontade, nada de cerimónias...
Depois de sacarmos a massa alugámos dois Rickshaws para irmos ao mercado comprar fruta para o almoço. O nosso motorista era parecido com o Estaline, mas com uns lindos olhos azuis. Tinha muita pinta. Viemos a saber que tinha sido sargento do exército o que por aquelas bandas significa um certo estatuto. Pelo caminho fomos à estação de combóio para comprar os bilhetes para Nova Deli. A visita que fizemos foi a Fathepur Sikrih que fica a cerca de 40 Km de Agra. Passámos por uma aldeia cujos habitantes têm como especialidade amestrar ursos que, depois, utilizam como caça moedas aos turistas que tiram fotografias e, nós não fugimos à regra, claro, embora não goste de animais amestrados.
O nosso guia em Fathepur Sikrih era um velhote com uns bigodes de respeito e com um grande espírito de humor. Ao mesmo tempo que fazia as descrições ia dizendo umas piadas relativas aos factos históricos. Segundo ele, o Maharaja Akbar tinha como primeiro-ministro um bobo que passava a vida a contar estórias, assim: “Diz Akbar ao bobo: “Ontem à noite sonhei que cada um de nós tinha caído num poço. O meu poço estava cheio de mel e o teu de estrume de vaca.” Responde o bobo: “Tem piada que o meu sonho foi igual só que, quando vínhamos a sair do poço, eu lambia-te e tu lambias-me...”.
O túmulo do Santo Salim é todo em mármore e, lá dentro tem um docel de sândalo com madrepérola onde as pessoas atam umas fitinhas (do tipo das da Baía) no rendado de mármore que circunda o túmulo com os seus desejos. Todos fizemos pedidos e, se o pedido for satisfeito temos de dar uma esmola a um pobre. É claro que, no fim da visita, tivemos a costumada visita a uma loja de artesanato que, por acaso, era do filho do guia... Lá nos safámos com dois elefantes de mármore cada uma, mas à saída tivemos de fugir dum enxame de vendedores. Esta atitude tem a ver com a pobreza que grassa naquelas paragens e, também, o jeito que têm para vender o que quer que seja. Mesmo assim, tivemos de ceder e visitar uma loja de mármores antes de chegar à estação do combóio. O motorista afirmava a pés juntos que a qualidade dos produtos daquele armazém era do melhor. De facto assim era, e não nos maçaram para comprar.
Tomámos o combóio e lá seguimos para Nova Deli.

Fiquem bem!

domingo, maio 14, 2006

JAIPUR - A CIDADE COR-DE-ROSA


Aqui vamos nós, Índia acima, seguindo os passos estabelecidos ou improvisados. Como lhes disse, demo-nos ao luxo de apanhar um avião que nos levasse até Jaipur, a cidade cor-de-rosa. Esta parte estava programada porque com os transportes naquelas terras não se brinca… E, foi assim…
Que apanhámos uma camioneta que nos deixou num modesto aeroporto onde tomámos o pequeno-almoço. A viagem não foi muito demorada e, à chegada, alugámos um Rikshaw com um condutor velhote amoroso que nos serviu de guia até ao fim do dia. Arranjou-nos um hotel, muito ao estilo de casa colonial. A minha amiga estava com um bocado de medo de novo encontro com as “amigas” baratas, mas as massas também não davam para outros luxos e, por isso, teve de se conformar. O hotel ficava dentro dum jardim, o que era excelente para nos proteger dos maus cheiros que vinham dos esgotos a céu aberto das redondezas. Depois do almoço demos início à visita à cidade que nos pareceu bastante bem delineada, com ruas largas e alcatroadas. O trânsito, aquela loucura que se conhece da Índia: carros, montes de bicicletas, Rickshaws, mini-autocarros, um verdadeiro pandemónio que só eles entendem. Tivemos o cuidado de comprar os bilhetes para a viagem de autocarro até Agra, não fosse o diabo tecê-las. Seguimos para o Observatório que podem ver no postal acima. Este Observatório foi construído pelo fundador da cidade que era um génio nestas matérias. Engenhocas de mármore, pedra e bronze, relógios de Sol com grande precisão, hemisférios, planisférios, planetário, signos zodiacais, eu sei lá! Foi uma visita muito interessante e ilustrativa. Passámos para a visita ao Palácio Real que durou 1 hora, um verdadeiro mergulho na história deste povo que, naquela zona sofreu várias invasões e, em consequência, variadíssimas influências. Fora da cidade – construída dentro de muralhas - andámos uns quantos quilómetros para ver o palácio primitivo do Maharaja Jain. Tem uma situação espectacular pois fica a cerca de 300 metros de altitude. Pena que estivesse tão degradado. Fomos a pé até lá acima, não tendo escolhido ir de elefante por ser estupidamente caro e, pessoalmente, penso que não iria acrescentar nada às emoções já vividas.
Como habitualmente, terminada a visita turística enfiaram-nos num armazém de artesanato onde nos foi mostrado como são feitos os estampados, fazendo mil e uma tentativas para nos venderem tudo e mais alguma coisa. Acabei por comprar duas colchas muito bonitas que, ainda hoje, estão a uso pelo seu colorido e originalidade. Antes de regressarmos ao hotel, passámos pelo mercado onde fomos comprar a costumada fruta, tendo feito o resto do caminho a pé, com numerosas fintas às bicicletas, aos automóveis e tudo o resto que mexe e apita desenfreadamente. Acho que eles conduzem com a mão colada à buzina… Um salve-se quem puder! Terminámos o dia com um banho e o jantar refrescante, preparados para a viagem do dia seguinte, até Agra onde se encontra o imperdível Taj Mahal.
Nota importante: fazia nesta altura 1 semana que tinha deixado de fumar sem me custar nada! Sentir-me LIVRE é uma experiência inolvidável que mantenho e convido todos a terem essa vivência. Engraçado é nunca mais ter tido vontade e até me parecer que nunca fumei… Eu sei que nem para toda a gente é assim e, que este é um vício muito difícil de deixar e que passa sobretudo pela vontade espontânea que não nasce, propriamente, na cabeça.
No dia seguinte de manhã, lá apanhámos o costumeiro autocarro de “luxo” que levou quase uma hora só para se desenvencilhar do trânsito da hora de ponta que, cá para nós, é a todas as horas… A caminho do Taj Mahal.
Um abraço.

Fiquem bem!

domingo, maio 07, 2006

OS TEMPLOS GRUTA


A razão desta visita prendeu-se no interesse que estas grutas templo têm. Na Índia são muito comuns, contando-se quase 1200. Estas escavações não foram feitas a partir de grutas naturais. As rochas foram esculpidas de cima para baixo com ferramentas primitivas e a partir de planos feitos à partida. Os Budistas foram os primeiros a fazê-las. Os templos consistiam em duas zonas demarcadas: o templo propriamente dito e a zona residencial dos monges. As Grutas de Ellora são produto de três religiões: Budista, Bramanista e Jainista e contêm esculturas de deuses deusas representativas da sua fé.

Chegámos ao Hotel Aurangabad Ashok onde ficámos muito bem instalados, se compararmos com as experiências anteriores. A janela do meu quarto dava para o jardim e, ao fundo, avistavam-se as montanhas. Depois dum rico banho e pequeno- almoço razoável, lá me enchi de coragem para resistir à tentação de mergulhar nos lençóis. Fomos até à “cidade”, se é que se pode chamar cidade a um amontoado de barracas, para explorar as fábricas das sedas que constitui uma das atracções turísticas do sítio. Pedintes que se colam a nós como moscas, tudo de uma grande pobreza. Uma das tais fábricas era um verdadeiro buraco onde um velho caquéctico manejava um tear do tempo da pedra lascada. Tecia seda misturada com algodão com desenhos complicadíssimos, alguns giros, mas não muito ao gosto ocidental. Não comprámos nada por serem bastante caros, apesar do valor daquele trabalho. Ainda comprámos umas pulseiras feitas de bronze e zinco, cravadas com fios de prata, uma recordação apenas.

A certa altura, vimos um grande grupo de gente a cantar que transportava um andor coberto com flores. Percebemos, de imediato, que se tratava dum enterro pois no andor ia um cadáver todo embrulhado, mas com a cara de fora!!! As pessoas, possivelmente familiares e amigas, iam deitando flores para cima do morto, enquanto seguiam para o local da cremação. Uma imagem macabra e, para nós, estranha. No entanto a forma como se desenvolvia a cena não se tornou chocante. Dá para perceber que aquele povo acredita noutra vida.

Almoçámos no hotel porque, fora dele era impossível encontrar alguma coisa de jeito. Duas horas depois, o táxi que alugámos, levou-nos a passar a tarde mais agradável que se possa imaginar, talvez das melhores que passámos na Índia até ali. Fomos, então, visitar as Grutas de Ellora que ficam a cerca de 30 km de Aurangabad. O tempo estava convidativo e o local onde se encontram as grutas era uma beleza. As grutas ficam no sopé dum monte, viradas a sudoeste e com um vale imenso em frente, muito arborizado (mangueiras e outras árvores). As grutas esculpidas na rocha dão ao lugar uma atmosfera sobrenatural. Separei-me do casal e comecei a explorar calmamente, todas as grutas que me pareceram interessantes. As primeiras 12 são Budistas, por isso, estão repletas de imagens de Buda, algumas descomunais. Realmente é fantástico como conseguiram fazer aquilo com ferramentas tão rudimentares, muita paciência e bastante tempo. Ao chegar às últimas, deparei com uma data de macacos em cima duma árvore; deixaram-se observar sem problema nenhum e até se deixaram fotografar. Soube-me muito bem estar ali em comunhão com a natureza. A certa altura, um dos guardas veio ter comigo e meteu conversa comigo – uma coisa que acontecia com frequência pelo facto de não ter par – e começou a pedir-me esferográficas para os filhos levarem para a escola (um pedido muito comum na Índia). Depois mostrou-me pedras dali, ametistas e ágatas. Vendeu-me um coração amarelo para pendurar no fio e deu-me outro verde como presente. Fez-me imensas perguntas, quantos anos tinha, quem eram aquelas pessoas que estavam comigo, de que país era, etc. Arranjei um amigo! Os guardas das grutas funcionam como cicerones, explicando as coisas naquele inglês do costume, e apontando um espelho de zinco como reflector para iluminar as figuras. Ainda visitámos as grutas Hindus e Jain.

De regresso ao hotel, ainda visitámos uma aldeia onde se encontra o túmulo do Imperador Aurangzeb, que deu o nome ao sítio. Abastecidos de frutas pelo caminho, fizemos o nosso jantar no meu quarto. Feito o repasto, demos uma volta pelas lojas do hotel onde deixámos mais umas rupiazitas na compra de umas saias e umas blusas, mais uma caixa de cigarros para dar ao meu marido.

Um dia cheio de emoções que me acalmaram angústias interiores que, de vez em quando, se instalavam no peito e na mente. Apesar do espírito de aventura é preciso não esquecer que, me custava não ter par. O meu marido ainda estava bem longe destas vivências ióguicas e, sempre ouvi dizer que “dois é bom, três é demais…”, sem contar, é claro, com as saudades de casa e dos filhos. Naquele tempo e naquela terra, não havia facilidade de comunicação como há agora. Só por telefone fixo podíamos contactar com Lisboa e, mesmos assim, era preciso contar com a grande diferença de horas.

No dia seguinte fomos numa excursão até às Grutas de Ajanta. A viagem foi um bocado maçadora e longa. Estas grutas ficam na garganta dum rio e, como as outras, no sopé duma montanha. Antes de lá chegarmos, parámos num miradouro para termos uma ideia da sensação que tiveram os caçadores ingleses quando chegaram ali à beira daquela ravina e depararam com a entrada para o Templo Gruta. Um vista linda de morrer!!! A parte chata de sempre, são os vendedores de colares e ametistas que se pegam como lapas. Estas grutas são consideradas mais importantes do que as de Ellora pois têm uns frescos, relativamente bem conservados, são mais antigas e todas Budistas. O problema da conservação dos frescos foi o facto de, embora tenham sido descobertos em 1819, só em 1920 lhes foi dada importância eram consideradas monumento nacional, e sendo a gruta usada pelos pastores como refúgio nocturno, as fogueiras que faziam queimaram muitas das pinturas. Desta vez tivemos um guia do Governo que falava bem inglês felizmente. Com o livro que comprei sobre o assunto, fiquei com uma boa ideia daquela maravilha. Na volta calhou ficar ao pé de mim um rapaz dum certo nível cultural com quem mantive uma agradável conversa que me pôs a par de usos e costumes. Jantámos noutro hotel e, cama com eles pois no dia seguinte seguimos de avião para Jaipur, a nossa próxima paragem. Ir de avião, depois das andanças de comboio e autocarro, um verdadeiro luxo! Já lhes conto.

Fiquem bem.

segunda-feira, maio 01, 2006

SEGUE A VIAGEM...


Cá estou novamente para vos contar como foi o caminho para Poona e respectiva estadia. É preciso que vos diga que a razão desta visita tem a ver com o facto de, nesta cidade, haver vários centros de Yoga e um Ashram do Suami Rajneesh, actualmente chamado Osho (já falecido). O que pretendíamos visitar era o centro dum grande Mestre de Hatha Yoga, Iyenger. Apanhámos o comboio na Estação de Vitória e lá nos sentámos numa carruagem onde nos reencontrámos com o suma-a-pau. A 1ª classe era bastante mais cara, por isso, optámos por poupar umas rupias, sacrificando o conforto. Por cerca de 120$00 tivemos direito a chá e uma refeição ligeira. A viagem até se fez muito bem pois passámos o tempo a contar as nossas aventuras e a ouvir as dele.
Chegámos a Poona e, por coincidência, à saída encontrámos uma senhora que havíamos conhecido a caminho de Ganeshpuri que nos indicou um hotel ali perto. Infelizmente, esse estava cheio e acabámos por ir parar a um mais barato, tipo casa de passe, onde as amigas baratinhas se passeavam com toda a liberdade. A minha amiga foi contemplada com uma enorme, enquanto eu só mereci as pequeninas…. O sono e o cansaço eram tantos que a vizinhança não me chegou a perturbar demasiado o descanso.
O marido da minha amiga estava cheio de febre e tivemos de procurar um médico que se apresentou mais tarde. Começámos, então, a organizar a visita aos centros que nos interessavam. Viemos a saber que o Suami Rajneesh se tinha posto a andar para a América e o Ashram havia sido fechado por ordem do Governo. O homem tinha uma organização com práticas pouco recomendáveis, segundo ouvimos dizer. No entanto, os adeptos estrangeiros (principalmente alemães) continuavam por lá, todos com bastante mau aspecto, vestidos com túnicas grenás e um colar ao pescoço com a foto do chefe. A higiene não passava, definitivamente, por ali… Nesta terras, também, é difícil andar limpo, lá isso é verdade.
Depois do marido da minha amiga ter recebido tratamento, fomos almoçar antes de fazermos a habitual excursão para conhecer a cidade, acompanhados por grupos de pessoas da terra que vibravam bastante com o que ia sendo mostrado. Visitámos um museu, um Templo Ganesha (o Deus elefante), a cidade universitária e mais umas quantas voltas um tanto ou quanto demoradas, com explicações em híndi, à mistura com umas poucas palavras em inglês macarrónico para não ficarmos a leste. Em cada paragem, os nossos companheiros de viagem não perdiam a oportunidade para se abastecerem de goluseimas (maçarocas, amendoins, goiabas, aperitivos, etc., etc.). A última coisa que visitámos foi o Mahatman Gandhi Memorial, num antigo palácio do Agha khan, cedido a Gandhi durante o período revolucionário. Foi bastante emocionante sentir a energia daquele lugar.
Quando terminámos o passeio, metemo-nos com armas e bagagens num Rikshaw e apontámos para o hotel onde iríamos ficar à espera da camioneta para Aurangabad, não sem antes passarmos pelo Ashram do Rajneesh para tentarmos perceber o que por lá se passava. Informaram-nos, então, que os europeus já não moravam ali e que tudo aquilo iria ser deitado abaixo. Com grande pena minha, não chegámos a visitar o Ashram do Mestre Iyenger pois ficava fora de Poona e teríamos de apanhar um táxi até lá, o que não nos dava jeito e, diga-se de passagem que não perdemos nada porque ele não estava na Índia. Como fomos na altura da monção, ou perto do fim dela, estes mestres, aproveitam para viajar até à Europa ou à América. Ao fim e ao cabo, a nossa passagem por Poona não passou disso mesmo, apenas nos ficou na memória um povo simpático e diferente do de Bombaim que, por ser um porto recebe montes de gente em busca da sua sobrevivência. Na visita que fizemos à cidade, perto do fim, o guia veio ter com cada turista, agradecendo a participação – aos homens apertava a mão e às senhoras fazia o gesto de saudação (“Namasté”) que consiste em juntar as mãos à frente do peito.
Uma vez instalados no “brilhante” hotel, tomámos um banho, jantámos as nossas frutas variadas e deitámo-nos para repousar, esperando pela hora da camioneta de carreira que estava prevista para a 01.30 da noite, o que só aconteceu uma hora mais tarde. Chegado o transporte, lá nos instalámos e tive como companheiro um indiano que dormia a sono solto, o que não aconteceu comigo apesar da viagem ter durado 5 horas. Tenho dificuldade em dormir sentada e, além disso, a geringonça tremia e resfolegava por todos os lados!...Chegámos a Aurangabad às 07.30 da manhã, que se apresentava linda e com uma temperatura bem mais agradável do que aquela que tínhamos tido até ali. Verdade se diga que já estávamos fartos de chuva e lama; passar para o pó foi um grande melhoramento na nossa qualidade de vida, podem crer…
A intenção desta paragem, era a visita às cavernas de Ellora, muito famosas. Logo vos contarei como decorreu essa visita.
Fiquem bem!

P.S. - Na foto está o Gandhi Memorial