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sábado, janeiro 14, 2006

REVIRAVOLTA NO KARMA

Um dia, o meu marido chegou a casa com a novidade de que havia a possibilidade dele sair do navio e passar a ter funções em terra, o que permitia prolongar a comissão e trazer o resto da Família. É claro que, como as condições eram atractivas, ficámos entusiasmados e ansiosos por ter a confirmação de que a ideia ia avante. E foi!!!
Para que os nossos dois filhos viessem, pedimos a ajuda da minha sogra que acabou por aceitar trazê-los de barco e ficar connosco uns meses. O avião continuava fora do nosso alcance... e, assim aconteceu termos ido parar à Estação Radio Naval que ficava a 15 km de Lourenço Marques, na Machava. Como o lugar era de direcção tivemos direito a uma bela casa que pertencia a um aglomerado de outras tantas onde vivia o resto do pessoal, para além do quartel dos Fuzileiros.
A casa era, realmente, excelente. Tinha um belo jardim e, nas traseiras, uma horta com galinheiro e coelheira. No recinto havia uma piscina que fazia as delícias das crianças e dos adultos ao fim de semana. Para além disso, campos de ténis onde se praticavam umas jogatanas ao fim da tarde, normalmente seguidas de umas bebidas na varanda, antes da chegada dos mosquitos… A nossa casa passou a ser uma espécie de Clube, no entanto, durante a semana sentia-me sozinha e pouco ocupada para meu gosto. As crianças mais velhas andavam na escola e havia uma natural abundância de empregados competentes que não me deixavam ocupar das lides da casa, para além de ir às compras e dar uma orientação aos serviços. Começou-me a dar a neura, porque, diga-se em abono da verdade, não sou muito sociável e, por isso, me tornei quase uma eremita. O meu marido, ocupado com as “guerras” e as saudades da família, puseram-me os nervos em franja, até que, por conta própria, resolvi arranjar um part-time e, mais tarde, a conselho dum médico inteligente, tirei a carta de condução e comprámos um carrito em segunda mão que me permitiu uma maior facilidade de deslocação para a cidade onde me encontrava com a minha prima ou me ocupava com compras feitas na Baixa. O trabalho no escritório que me aceitou como tradutora, preenchia-me as tardes, o que foi suficiente para “concertar” a minha cabecinha. Ainda não praticava Yoga, mas a intuição manifestava-se no sentido de perceber que o meu problema era eu que tinha de resolver!
Os dias foram-se passando. Comecei a criar coelhos, a partir duma coelha que tinha comprado para um jantar, mas à qual não tivemos coragem para lhe dar esse destino; como a minha vizinha tinha coelhos, foi fácil arranjar-lhe um marido… O problema é que, sabem como são os coelhos, tive de os começar a vender no mercado, visto que nem pensar em comê-los! Tínhamos uma gata que, também se reproduzia por conta própria!... Bicharada não faltava naquela casa; as crianças adoravam aqueles brinquedos vivos. A horta era um grande orgulho meu, pois dava umas alfaces formidáveis, para além de outros legumes próprios do clima que nos sabiam muito bem. Fui criando amizade com uma família que morava perto. Eles foram muito importantes pois colaboravam comigo quanto a tomar conta das crianças sempre que era preciso, para além da amizade que fez de nós compadres quando lhes nasceu uma filha. Com a sua colaboração, pudemos fazer uma bela viagem à África do Sul, Joanesburgo, Pretória e Durban, tendo passado pelo Gruger Park para ver os animais selvagens. Fizemos essa viagem no carro dos meus primos que conheciam bem os caminhos. Naqueles quatro anos, foram as únicas férias que fizemos, mas foi muito bom, muito divertido, apesar do choque que, para mim, foi constatar o “Apartheid”. De salientar o facto de termos passado pela experiência de viver um ciclone, o Claude, que passou por Lourenço Marques e arredores. Impressionante! Três dias de chuva torrencial que deixaram a zona da praia da Polana completamente alagada. O meu marido ainda teve a brilhante ideia de nos ir mostrar o que se estava a passar. Metemo-nos no nosso carro (um Wolksvagen, daqueles à antiga) e lá fomos. Só que, já perto da marginal, as encostas começaram a deslizar e, só tivemos tempo para sair do carro sem ser pela janela!!! Um belo susto, mas as crianças responderam, calmamente, à acção repentina e tudo acabou em bem. Na nossa casa sofremos a perda de um enorme cajueiro que, por estar velho, caiu, felizmente sem ser para cima do telhado. Mais tarde, no que restava do tronco, plantei uns cactos; ficou muito bonito.
Tudo sob rodas até que... Já sabem, lá tivemos de mudar outra vez de vida!!!
Até à próxima,
Um abraço.

4 comentários:

aldina disse...

Até á próxima mudança, sem falta! Agora que a sobrevivêcia estava assegurada, a Maria Emilia teve tempo para reparar em si e nas suas necessidades pessoais...?

beijinhos

Maria Emília disse...

Talvez sinais de um despertar de consciência que todas estas vivências me provocaram, mas ainda longe do que me esperava...Era muito nova. Cheguei a Moçambique com 24 anos, 4 filhos e muitas separações, muitas dificuldades. A vida tem-me ensinado o desapego, lá isso é verdade!

Um abraço, fique bem.

Anónimo disse...

Interessante a descrição que fez da sua casa... Pertinho do Portão onde fiz tantas guardas de serviço... De um ex: gr. FZ na Machava (Australia)

Maria Emília disse...

Caro amigo,

É sempre interessante encontrar quem passou pelos mesmos sítios, embora com uma visão diferente.
Que corra tudo bem "down under".

Um abraço,