A minha Lista de blogues

domingo, outubro 29, 2006

CALOR




Olho o Céu que espreita da janela do meu escritório caseiro e, não fora as árvores mostrarem os seus ramos meio desnudados, pensaria que estávamos ainda no Verão... O calor aperta mas não apetece praia! Sente-se no ar um desejo a Outono pois é confuso ter tempo de férias e estar a trabalhar. Por um lado há queixas e comentários: “Este tempo quente não é normal... estamos fartos de calor!!!”. No entanto, como somos criaturas contraditórias, também não nos cansamos de dizer que, apesar de tudo, este tempo sem chuva nem frio é bom... Nas traseiras do meu escritório propriamente dito avisto uma nespereira que, coitada, está baralhada com este clima e já começou a dar flor o que é suposto ser só lá para Janeiro. Na sua inocência de simples árvore de fruto, não entendeu o que estava a acontecer e, por isso, segue o esquema calor = a Primavera.
Paciência... Serve esta introdução para falar de livre arbítrio. Será que o temos verdadeiramente?... Que forças nos comandam para que tenhamos de prosseguir com os nossos “Karmas” sem os questionar? Que hipóteses temos nós de escolher o que mais nos convém ou agrada?...Eu diria, talvez pela experiência de Vida que já conto na minha bagagem/memória, que o livre arbítrio é uma concessão dos Deuses que nos passam para a mão a responsabilidade de escolhermos a maneira como vivemos e resolvemos esses “Karmas” para que, de futuro, o nosso destino seja bem mais risonho, ou talvez diferente.
Sabemos que temos pela frente uma série de desafios, propostos pelo que nos vem à cabeça ou “inventados” por outrem, mas o que ignoramos é como nos vamos desembaraçar deles e inventar novos. A Vida é, ela própria, um desafio, coisa que não é novidade para ninguém! Chegar ao Mundo sem saber o que vamos encontrar é, certamente, o primeiro grande passo, de tal maneira grande que começamos a berrar a plenos pulmões. Dizem que é preciso chorar para que eles funcionem... Para mim faz sentido porque, entrar de rompante nesta enorme “sala”, é um verdadeiro susto!!! Para além disso há que marcar a nossa presença e fazer ouvir a nossa voz, sem o que nem comíamos nem bebíamos, nem tão pouco andaríamos vestidos à maneira.
Aqui está o uso primordial do livre arbítrio, chamar a atenção para a nossa pessoa como Ser pertencente a um Grupo. Começa o caminho. É preciso aprender a percorrê-lo, descobrindo atalhos, subindo montes, descendo vales e perceber quando é preciso parar para observar os sinais e, esperar o tempo necessário para os descodificar. Lá está outra vez o livre arbítrio... Descodificar sinais depende da nossa vontade, da nossa atenção e, principalmente da nossa disponibilidade. Temos sempre tanta pressa de chegar, quando o que importa é o fascínio que é percorrer um caminho, olhando em volta para que fique na memória um manancial de informação que nos permitirá reconhecer caminhos já percorridos, permitindo acelerar o nosso passo quando a ocasião se apresenta.
O calor tem destas coisas... quando acorda em nós sensações, dá-nos que pensar... Cá está, outra vez, o livre arbítrio a funcionar: PENSAR!!! O pensamento é, realmente, a nossa grande ferramenta. Precisamos usá-la com a consciência da sua força e todo o seu potencial e, para isso, nada melhor do que meditar. Meditar é elevar ao mais alto nível a vibração que nos dá a capacidade para vencer qualquer obstáculo, receber informação que será a luz que alumia todos os caminhos a percorrer. Meditemos pois.
Fiquem bem!

terça-feira, outubro 24, 2006

UMA CASA CHEIA



Os que me têm acompanhado neste desfilar de memórias, já devem ter percebido que a minha vida é como uma casa cheia. Comecei por nascer numa família que se foi reproduzindo sem preconceitos ou demasiada programação. Os meus Pais tiveram quatro filhos (infelizmente, um morreu bébé) que, por sua vez se multiplicaram até aos treze netos que vieram a dar fruto, sendo que se contam, até agora 30 e, em breve, 31 bisnetos!!!
Enquanto a minha Mãe foi viva, e a conta de bisnetos não estava tão avançada, conseguíamos reunir-nos no Natal em casa do meu irmão (no último que lá passámos seríamos umas sessenta pessoas). A minha Mãe fazia muita questão nessa reunião de família, mas o grupo começava a pesar aos hospedeiros, apesar da boa vontade e do espaço ser, apesar de tudo, bastante. Quando a minha Mãe passou para outra dimensão, livre do corpo que já lhe pesava, decidimos que era altura de cada um ficar na sua própria casa, o que vem acontecendo desde então. Agora encontramo-nos mais espaçadamente e em ocasiões em que se celebram acontecimentos particulares (casamentos, baptizados, etc.), acompanhando-nos uns aos outros dentro do possível.
Quando me entreguei ao projecto “Satsanga”, levei comigo o mesmo ideal de família e, assim, esta casa, também, está sempre cheia com todos aqueles que dela se aproximam, seja para umas aulas de Yoga, seja para uma conversa a sós ou, simplesmente, para partilharem alegrias ou preocupações. Foram chegando a pouco e pouco, aproximando-se do núcleo central, e muitos fizeram daquele espaço a sua Casa, à medida que se iam sentindo identificados com a vibração reinante. Acabei por criar outra família, de natureza espiritual, que tem vindo a crescer e a desenvolver-se em liberdade, com a segurança que dá a sensação de pertença. Criei os meus filhos, dando-lhes o sentido da responsabilidade, no gozo da liberdade que essa atitude pressupõe. Na família “Satsanga”, como alguns já lhe chamam, o espírito é o mesmo. Cada um que chega, e se sente tão confortável como uma peça de puzzle que encaixa no seu lugar, não obedece a regras nem se faz seguidor; as regras são aceites por se acharem justas e próprias para uma ordem conveniente e ninguém “segue” ninguém porque, simplesmente, caminhamos lado a lado, sabendo cumprir dentro do que a cada um cabe cumprir. Ao longo dos anos fui dando a perceber que, o ideal é que cada Ser saiba o que quer e o que vale dentro duma comunidade e, quando se dá o respectivo valor às competências, tudo funciona na perfeição. Os que mandam, mandam quando é esse o seu papel e os que recebem instruções sabem que a humildade é fundamental, humildade que nada tem a ver com submissão, é bom que se entenda. A autoridade é reconhecida e, naturalmente, aceite pois a ordem é fundamental em qualquer sociedade.
A minha vida é uma casa cheia de energia que sinto mesmo quando estou só. A presença dos que me marcaram e dos que me acompanham, é indelével! A ligação espiritual é qualquer coisa de formidável, mesmo transcendente e não tem que ver com relações de natureza emocional. Muitos dos que contribuíram para que a minha vida fosse uma casa cheia, já cá não “moram” fisicamente, no entanto, continuam a ter um lugar no meu coração onde reina o amor incondicional. Como numa casa de família, os filhos crescem e, às vezes, têm de partir para outras paragens. O desapego é um factor primordial para que se consiga continuar em alegria e, sobretudo, liberdade.
Os Deuses que me acompanham, dão-me a segurança que me permite continuar de porta aberta para que o vazio nunca se instale e a Casa continue sempre cheia. Eu, apenas, me entrego e me deixo guiar, pois só assim é possível chegar ao fim da minha passagem pela Terra e dizer: VALEU A PENA!!!
Fiquem bem!

domingo, outubro 22, 2006

UM TEMPO




Temos de ter em consideração que é preciso um tempo para que o entendimento com os outros se faça sem que seja preciso romper barreiras defensivas que todos, de um modo ou de outro, criamos ao longo da existência. Por esse facto, podemos dizer que amar é ter consciência do tempo daqueles com quem privamos, saber escutar e fazer a ligação de forma amorosa, dando sem expectativas, mas com a certeza de que nas acções, como nos pensamentos o que conta é a intenção, controlando as emoções para que se possa experimentar uma sensação de bem-estar enquanto se esperam respostas que dêem as pistas necessárias para se prosseguir com este ou aquele contacto.
A relação com os outros dá-nos uma perspectiva do que sentimos e permite-nos avaliar o estado de evolução em que nos encontramos, um verdadeiro espelho onde nos revemos, de preferência, sem julgamentos apressados. É preciso um tempo para perceber o que está para além do imediato instinto que nos avisa da necessidade de lutar ou fugir. Consideremos, pois, que os relacionamentos requerem uma sensibilidade, um bom senso e um tempo de espera que dê a garantia de que os passos seguintes sejam seguros e certos. As situações alteram-se e o que sentimos hoje em relação a alguém pode ser completamente diferente amanhã. As acções são determinantes para podermos perceber se os sentimentos têm, ou não, razão para persistir. As circunstâncias e os interesses que se alteram são factores a considerar, e a nossa liberdade, em consciência, é um bem a preservar. Assim, estamos com quem temos de estar porque o Karma o determina e tudo segue a seu tempo, fluindo com a confiança própria de quem sabe que os Deuses, os Guias, os Mestres e os Anjos se mantêm atentos ao desenrolar das nossas vidas atribuladas e, por vezes, confusas. Demos, pois, um tempo, confiantes e amorosos.
Fiquem bem!

quarta-feira, outubro 18, 2006

"DHARMA" E SAÚDE

Este texto que vos deixo fui buscá-lo ao meu livro "O Caminho da Sabedoria" (Editorial Angelorum Novalis que também vai publicar o meu próximo, com o o título "A Alma e os seus Percursos) e vem a propósito duma conversa com uma amiga em que falávamos da palavra "Dharma", consciência do dever e sua relação com a saúde.

“A CADA INSTANTE, O CÉREBRO TEM AO SEU DISPÔR QUALQUER COISA DE MUITO ÚTIL E ESPECIAL: A REPRESENTAÇÃO DINÂMICA DUMA ENTIDADE COM UMA AMPLITUDE LIMITADA DE ESTADOS POSSÍVEIS A QUE SE CHAMA CORPO.”
In “O Sentimento de Si”
António Damásio


A troca de experiências, a aprendizagem e o convívio são os principais factores que unem os indivíduos, seja no trabalho, na escola ou em sociedade e, mesmo, em família. Estes interesses podem ser mais ou menos mesquinhos, mais ou menos generosos de acordo com as tendências de cada um. A verdade é que é preciso buscar nos encontros a satisfação física, mental e espiritual para se crescer com a capacidade de aprender por conta própria e saber que a Vida é uma viagem solitária que se faz sem solidão quando nos alimentamos dos contactos que fazemos e proporcionamos, sem que isso represente apego ou dependência. É a saúde que está em causa.
No entanto, convém lembrar que precisamos de saber qual o nosso lugar, qual o nosso papel e, para isso, são precisas algumas regras que podemos definir, no seu conjunto, por “Dharma” ou consciência do dever. Pode parecer estranho que um dever tenha a haver com a saúde ou a harmonia, mas tem e muito... Senão, vejamos:
Quando funcionamos de acordo com o papel que nos cabe, sentimo-nos bem e, isso, vai reflectir-se no nosso corpo em termos de tranquilidade. As tensões provocadas pela desarmonia em termos de funcionamento, deixam as suas marcas. A inveja, o ciúme a insegurança e o azedume instalam-se dando origem a muito mal estar. Não respeitamos nem somos respeitados, não amamos, nem somos amados, não somos livres nem damos liberdade.
A dificuldade aparente é saber qual o nosso dever em cada momento ou circunstância. Aceitar o que nos é imposto ou assumir a responsabilidade de uma tarefa com independência é algo que acontece a toda a hora. Se nos sentirmos bem a fazer o que estamos a fazer, quer dizer que está tudo certo. O nosso corpo descontrai-se e a energia flui sem obstáculos de maior. A harmonia prevalece e a saúde é um dado adquirido que se sente e se vê, no olhar, na pele, na postura, nos gestos e no desenvolvimento pessoal e espiritual.
Cumprimos o nosso “Dharma”. Construímos um bom “Karma”.
O estado de harmonia é um direito que se conquista à medida que a consciência se amplia.
Fiquem bem!

quinta-feira, outubro 12, 2006

OUTONO NO JARDIM






“Saídos da escuridão procuramos a Luz. A nossa coluna é a árvore da Vida que nos prende à terra para que o processo de evolução seja uma realidade. Sejamos firmes e flexíveis para que a seiva continue a fluir até à realização final.”

Não posso deixar de vos dizer como é maravilhoso o espectáculo das Ginkobilobas no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, chegado o Outono! Por enquanto ainda não atingiram o ponto que vos mostra a fotografia acima, tirada o ano passado. Vale a pena estarem atentos. Este jardim é mágico e inspira qualquer um que por lá se detenha em pausa da lufa-lufa do dia a dia. Uma das muitas árvores tornou-se minha amiga, chama-se Fausta. Como esse encontro se deu, está contado no meu próximo livro “A Alma e os seus Percursos” que está previsto sair em meados de Dezembro (Editorial Angelorum Novalis).
Esta estação do ano, em Lisboa, tem uma Luz particular, um Verão a despedir-se suavemente, deixando as lembranças das férias bem guardadas. Um tempo para, devagarinho, irmos mergulhando no nosso Ser mais profundo, onde nos recolhemos para meditar no Caminho que estamos a percorrer e preparar terreno para novas sementeiras, novas ideias. Pessoalmente, penso melhor com o tempo mais fresco, por isso, gosto desta altura do ano em que dá para pensar em novos projectos, estimulada a criatividade, pela necessidade de avançar e procurar desafios interessantes e esperar encontros enriquecedores.
O Mundo está num grande desassossego, a precisar dos que acreditam que a Paz se constrói de dentro para fora e não de fora para dentro. A Paz individual é um elo de uma imensa corrente de energia que se propaga naturalmente; requer uma grande atenção, um trabalho, uma disciplina e, sobretudo, uma intenção que está para lá de ideias feitas e de facilidades mágicas que muitos apregoam. Não basta ter pensamento positivo, é preciso que as acções tenham a sua correspondência. Não basta ler instruções ou passarem-nos receitas milagrosas para que a Vida passe a correr sobre rodas! A consciência é algo que tem de ser trabalhado de forma criteriosa e com toda a humildade do mundo. Soluções fáceis para os problemas não representam garantias para coisa nenhuma!!! O auto-conhecimento é, apenas, um passo para a solidariedade, absolutamente necessária para o desenvolvimento pessoal e de grupo. A unidade na diversidade devia ser o nosso lema. Somos UM, pertencendo a um TODO, como células de um tecido e, se cada um souber como É e como ESTÁ, a harmonia estabelece-se naturalmente. Um sociedade equilibrada depende da ordem e a ordem depende, por sua vez, da responsabilidade individual e colectiva, cumprindo um “Dharma” (Dever) que fará com que o Karma também se cumpra.
Não percam, pois, a visão fantástica das Ginkobilobas no Outono e respirem a tranquilidade daquele jardim ou de qualquer outro que encontrem no vosso deambular e sintam aquela paz a instalar-se. Vale a pena meditar na árvore que somos e sentir a seiva correr-nos pelas veias, alimentando o corpo e a alma.
Fiquem bem!

domingo, outubro 08, 2006

MEMÓRIAS



Calha estar neste momento a gozar um curtíssimo período de férias no sul de Espanha e, logo, as memórias dos tempos em que por cá viajávamos para atender cursos de Instrutores. De facto, posso dizer que conheci muitos lugares deste país pois os cursos não eram sempre feitos no mesmo sítio e as escolhas dependiam da disponibilidade de seminários ou colégios em férias escolares. Os primeiros funcionaram na serra de Gredos, não muito longe de Talavera de la Reina; seguiram-se Cervera de Pisuerga, de que já vos falei, bem a norte, a caminho de Santander e com os Picos da Europa por perto o que nos permitiu dar uns belos passeios nos poucos tempos livres que nos restavam dos estudos e práticas intensivas. A oportunidade de conhecer as zonas em redor deve-se ao facto de o nosso mestre ser uma pessoa bem relacionada, e, por isso, nos levava a sítios não muito turisticamente conhecidos. Outro lugar que nos deixou lembranças, umas até engraçadas, foi Dueñas, perto de Valladolid. Como curiosidade vos digo que nessa terra havia uma bela igreja onde os reis católicos se tinham casado e, perto, havia um mosteiro de monges que se dedicavam à confecção de óptimos chocolates que vendiam aos que por lá passavam. Os seus cânticos gregorianos encantavam-nos quando, ao fim do dia, podíamos lá ir escutar e meditar num ambiente todo ele transpirando espiritualidade. No curso que aconteceu aqui, levámos cinco portuguesas e mais alguns acompanhantes. Uma das futuras instrutoras já dava aulas em Lisboa e, talvez por isso, pensou que as coisas seriam mais fácies para ela, no entanto, verificou que não era tanto assim porque tinham que dar uma aula aos colegas que, depois, faziam as suas apreciações. Coisa nada fácil para a maioria como devem calcular. Ela aprontou-se para dar a aula, nós ficámos à espera, muito disciplinadamente, e… nada!!! Depois de algum silêncio, eis senão quando, a pequena deu à sola para não mais ser vista… até que, um dos nossos companheiros de viagem, a veio a encontrar, chorando à beira do rio que por ali passava. Creiam que a situação foi bastante complicada pois não soubemos dela durante algum tempo. Os nervos durante os cursos atacavam muito boa gente que tinha empenho na boa sucessão da coisa.
Nestes cursos, havia o hábito de promover um espectáculo semanal ensaiado pelos alunos. Aos portugueses cabia, quase sempre, cantar o fado, mas em Dueñas não havia nenhuma “fadista” e, perante a insistência dos instrutores da organização, tivemos de arranjar um número à pressa. Tive, então, a ideia de fazer um quadro de pseudo-revista em que faziam tudo por mímica, visto os nossos amigos espanhóis não entenderem patavina de português. Representámos o quarto das portuguesas, contando estórias sobre o comportamento de cada uma delas, coisas engraçadas e próprias de colégio interno. Foi um sucesso e lá ficou a nossa honra salva!
Os cursos funcionam em regime de internato, durante quatro semanas o que dá para conhecer muito bem a natureza humana, no seu melhor e no seu pior. Conheci pessoas fantásticas, vi gente que passava de santo a diabo em dois tempos, como tive a felicidade de ver desvendadas qualidades excepcionais em pessoas que, até aí, não se haviam mostrado na sua plenitude. Viver em comunidade não é para todos. Exige muita generosidade, muita paciência, muita humildade, um teste que determina a capacidade de cada um vencer os obstáculos que se deparam na sua própria vida. O problema é que as pessoas que frequentam estes cursos já não são crianças em idade escolar e chegam cheios de ideias preconcebidas e de ilusões de espiritualidade que não se compadecem com um sistema militar, uma disciplina dura de roer… Tive um colega, ele mesmo militar, que dizia que o curso era pior que a tropa. Levantar todos os dias às seis, trabalhar todo o dia e ainda ter tempo para estudar, é obra! Havia muito boa gente que se escapava quando podia, aos trabalhos, à meditação da manhã ou a qualquer outra actividade que lhes parecesse mais pesada ou desagradável. Os portugueses deram sempre cartas em termos de comportamento, mesmo quando a ansiedade apertava. Na verdade, os que iam já sabiam com que contar, por isso, deram por bem empregue o tempo lá passado.
Um dos últimos cursos em que participámos em Espanha, foi em Vitória, perto de Burgos. Participaram dois portugueses, um casal que, como todos, cumpriram bem as suas obrigações. Uma das dificuldades a ultrapassar era a língua, apesar de arranharmos o espanhol, não é o mesmo que manter uma comunicação fluida com os “nuestros hermanos”.
Fiquem bem! Outras estórias vos contarei.

Nota: texto escrito no dia 6 de manhã e postado só hoje por me ter esquecido da extensão para a “Internet”…

domingo, outubro 01, 2006

REVELAÇÕES



Qualquer relação pressupõe uma gestão de energia que por ela circula e que resulta de uma combinação de forças, umas vezes complementares, outras contraditórias. A harmonia estabelece-se em consequência duma expressão contínua de sentimentos que se vão desenvolvendo à medida que o conhecimento mútuo se aprofunda e se consolida. As afirmações ou as negações do que somos, ou gostaríamos de ser, são pistas que nos levam a descobrir que o que verdadeiramente conta é a Essência e tudo quanto está por detrás das aparências é uma Luz que surge no meio das sombras, iluminando o nosso campo de acção para que não hajam dúvidas. O que revelamos ou desejamos que nos seja revelado, jamais pode ser confundido com as projecções resultantes das experiências vividas no compasso de espera, amadurecendo o suficiente para não agirmos na vulgaridade das sensações passageiras e mesquinhas. O jogo de luzes a que nos habituámos serve, simplesmente, para esconder aquilo que, na verdade, só pode ser dado a conhecer a quem tiver o entendimento adequado, a sensibilidade própria de Seres que habitam as altas esferas do Conhecimento.
As barreiras que acontecem numa relação , são sistemas de segurança para não nos perdermos pelo labirinto das emoções, exigindo aos intervenientes, uma grande atenção e alguma destreza de pensamento. Ao descobrirmos que, afinal, fazemos parte da mesma história, podemos, facilmente, aceitar uma vivência que, tantas vezes, nos confunde e assusta, mas se tivermos uma nova perspectiva das coisas, passamos a não ter tantas expectativas, nem sermos surpreendidos pelos acontecimentos e sensações. O que temos em comum com alguém ou com um grupo, deve ser um meio de libertação gerado pela confiança estabelecida com paciência, perseverança e muito diálogo. Deixamos de precisar de “adivinhar” os sonhos que sonhamos, interpretando-os de acordo com os anseios e as dúvidas de quem faz um Caminho onde as incertezas se vão esfumando com cada etapa. A realização final depende da atenção dada ao que se sente, gozando a alegria de viver uma experiência espiritual que nos permite ser agentes de cura, própria e alheia.
As projecções do passado não devem ser impedimento para a abertura necessária à transformação que se deseja. É imperioso libertar tensões e criar um novo espaço, uma nova atitude, olhando para experiências que são nossas por direito ou por opção, partilhando com o outro ou com o grupo as vivências transcendentes que se vão acontecendo. Sintonizar com os que estão dentro do nosso círculo de energia é natural, no entanto, esse contacto tem de ser feito com amor e, porque não, algum desapego. Dessa sintonia nascem e se reforçam os laços das ligações que, por isso, nos tornam responsáveis pela evolução, própria e conjunta.
Assim, fluindo, dando e recebendo, levados pela força que brota da fonte cósmica, vemos o Sol nascer cada dia e a Lua a iluminar as noites escuras.
Fiquem bem neste Outono ensolarado!