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domingo, outubro 08, 2006

MEMÓRIAS



Calha estar neste momento a gozar um curtíssimo período de férias no sul de Espanha e, logo, as memórias dos tempos em que por cá viajávamos para atender cursos de Instrutores. De facto, posso dizer que conheci muitos lugares deste país pois os cursos não eram sempre feitos no mesmo sítio e as escolhas dependiam da disponibilidade de seminários ou colégios em férias escolares. Os primeiros funcionaram na serra de Gredos, não muito longe de Talavera de la Reina; seguiram-se Cervera de Pisuerga, de que já vos falei, bem a norte, a caminho de Santander e com os Picos da Europa por perto o que nos permitiu dar uns belos passeios nos poucos tempos livres que nos restavam dos estudos e práticas intensivas. A oportunidade de conhecer as zonas em redor deve-se ao facto de o nosso mestre ser uma pessoa bem relacionada, e, por isso, nos levava a sítios não muito turisticamente conhecidos. Outro lugar que nos deixou lembranças, umas até engraçadas, foi Dueñas, perto de Valladolid. Como curiosidade vos digo que nessa terra havia uma bela igreja onde os reis católicos se tinham casado e, perto, havia um mosteiro de monges que se dedicavam à confecção de óptimos chocolates que vendiam aos que por lá passavam. Os seus cânticos gregorianos encantavam-nos quando, ao fim do dia, podíamos lá ir escutar e meditar num ambiente todo ele transpirando espiritualidade. No curso que aconteceu aqui, levámos cinco portuguesas e mais alguns acompanhantes. Uma das futuras instrutoras já dava aulas em Lisboa e, talvez por isso, pensou que as coisas seriam mais fácies para ela, no entanto, verificou que não era tanto assim porque tinham que dar uma aula aos colegas que, depois, faziam as suas apreciações. Coisa nada fácil para a maioria como devem calcular. Ela aprontou-se para dar a aula, nós ficámos à espera, muito disciplinadamente, e… nada!!! Depois de algum silêncio, eis senão quando, a pequena deu à sola para não mais ser vista… até que, um dos nossos companheiros de viagem, a veio a encontrar, chorando à beira do rio que por ali passava. Creiam que a situação foi bastante complicada pois não soubemos dela durante algum tempo. Os nervos durante os cursos atacavam muito boa gente que tinha empenho na boa sucessão da coisa.
Nestes cursos, havia o hábito de promover um espectáculo semanal ensaiado pelos alunos. Aos portugueses cabia, quase sempre, cantar o fado, mas em Dueñas não havia nenhuma “fadista” e, perante a insistência dos instrutores da organização, tivemos de arranjar um número à pressa. Tive, então, a ideia de fazer um quadro de pseudo-revista em que faziam tudo por mímica, visto os nossos amigos espanhóis não entenderem patavina de português. Representámos o quarto das portuguesas, contando estórias sobre o comportamento de cada uma delas, coisas engraçadas e próprias de colégio interno. Foi um sucesso e lá ficou a nossa honra salva!
Os cursos funcionam em regime de internato, durante quatro semanas o que dá para conhecer muito bem a natureza humana, no seu melhor e no seu pior. Conheci pessoas fantásticas, vi gente que passava de santo a diabo em dois tempos, como tive a felicidade de ver desvendadas qualidades excepcionais em pessoas que, até aí, não se haviam mostrado na sua plenitude. Viver em comunidade não é para todos. Exige muita generosidade, muita paciência, muita humildade, um teste que determina a capacidade de cada um vencer os obstáculos que se deparam na sua própria vida. O problema é que as pessoas que frequentam estes cursos já não são crianças em idade escolar e chegam cheios de ideias preconcebidas e de ilusões de espiritualidade que não se compadecem com um sistema militar, uma disciplina dura de roer… Tive um colega, ele mesmo militar, que dizia que o curso era pior que a tropa. Levantar todos os dias às seis, trabalhar todo o dia e ainda ter tempo para estudar, é obra! Havia muito boa gente que se escapava quando podia, aos trabalhos, à meditação da manhã ou a qualquer outra actividade que lhes parecesse mais pesada ou desagradável. Os portugueses deram sempre cartas em termos de comportamento, mesmo quando a ansiedade apertava. Na verdade, os que iam já sabiam com que contar, por isso, deram por bem empregue o tempo lá passado.
Um dos últimos cursos em que participámos em Espanha, foi em Vitória, perto de Burgos. Participaram dois portugueses, um casal que, como todos, cumpriram bem as suas obrigações. Uma das dificuldades a ultrapassar era a língua, apesar de arranharmos o espanhol, não é o mesmo que manter uma comunicação fluida com os “nuestros hermanos”.
Fiquem bem! Outras estórias vos contarei.

Nota: texto escrito no dia 6 de manhã e postado só hoje por me ter esquecido da extensão para a “Internet”…

1 comentário:

aldina disse...

eu por mim cá a vou acompanhando nesta sua longa e rica história de vida(s).

Até sempre!