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terça-feira, junho 27, 2006

EM MOVIMENTO

“A energia em movimento provoca estados alterados de consciência que desencadeiam processos imparáveis, originando todos aqueles acontecimentos que se esperam, apesar de inesperados. O encontro das almas dá-se no instante em que se reconhecem como irmãs, fruto do mesmo ventre celestial. A unidade na diversidade é a prova que precisavam para acreditar.”

Ter casa própria permitiu-nos desenvolver um trabalho de acordo com a vibração que se foi estabelecendo e concretizando. A frequência em que nos movimentamos é determinante para o processo em curso. A experiência adquirida ao longo dos anos é a mais valia para qualquer trabalho e muito mais quando nos metemos por caminhos de espiritualidade. O grupo que serviu de base a esta aventura, foi-se consolidando e esta dinâmica permitiu-me avançar com alguma temeridade e a confiança possível. As coisas foram-se fazendo, com as dificuldades próprias de projectos inovadores e mesmo arrojados para a época. O pioneirismo tem o seu preço, mas também nos proporciona momentos de grande exaltação e contentamento.
O Centro nasceu em Almada porque era aí que tinha criado raízes e as condições mais favoráveis ao lançamento do projecto a nível humano. Desde o dia da inauguração, começámos com práticas de meditação e cânticos o que provocou alguma estranheza nas redondezas e até em alguns alunos menos avisados. Felizmente, os mais conscientes e mais confiantes, alinharam em força; embora não fossem muitos, eram de espírito guerreiro e descobridor. Fui acusada de estar a formar uma seita, mas isso não foi impeditivo para que deixasse de seguir pelo caminho traçado. Tenho o condão de acreditar só naquilo que, verdadeiramente sinto, e as influências positivas nunca me deixaram ficar mal. É engraçado como as coisas mudam, agora toda a gente quer aprender a meditar!!! Quando sinto na minha pele o efeito de uma experiência não há raios nem coriscos que me demovam, assim como não vale a pena insistir e fazer o que não me faz vibrar de alguma maneira. Aprendi a acreditar que o sentir-me bem comigo e com os que me rodeiam é o mais forte indicativo das escolhas serem as adequadas, mesmo quando bato com o nariz na porta; as coisas certas nem sempre são agradáveis ou fáceis e têm o seu propósito.
O Centro passou a ser um espaço de encontro onde se desencadearam processos de aprendizagem pessoal e colectiva que têm deixado a sua marca no sentir e no estar daqueles que se disponibilizam para aprender ampliando a sua consciência. Segundo a minha perspectiva, ninguém ensina nada a ninguém, cada um ouve com os ouvidos que tem e vê com os próprios olhos ou, como é costume dizer-se, é só quando o discípulo está pronto que o mestre aparece...
Fiquem bem!

quinta-feira, junho 22, 2006

DE CAIXEIRO VIAJANTE À CASA PRÓPRIA








A minha primeira experiência como uma verdadeira Instrutora de Yoga, deu-se quando decidi arriscar oferecendo os meus serviços ao Clube Atlético de Alvalade. Uma amiga fazia lá ginástica e disse-me que não tinham aulas de Yoga, por isso, resolvi apresentar-me à direcção do clube que se mostrou muito interessada. Nesse tempo o clube era muito modesto e gerido por carolas o que me agradou logo. O espaço que encontrámos não era a última maravilha.... um sala onde se faziam trabalhos de pintura decorativa, chão de cimento e com um acesso complicado (tinha de se passar pela sala de “ballet”). Mas, como a vontade de começar era muita, aceitei o desafio e começámos com cobertores no chão, um candeeiro de bicha e o aquecimento, tudo coisas que trouxe de casa. Apesar das condições precárias, começaram a aparecer alunos (mais alunas, claro!) e o entusiasmo pegou de tal maneira que, no ano seguinte, alcatifaram a sala. Duas das primeiras alunas, fizeram-se instrutoras e uma delas, apesar dos seus 81 anos, ainda dá aulas. Por lá fiquei até à formação do Centro de Yoga da minha amiga para onde também foram a maioria dos meus alunos. Guardo óptimas recordações desse tempo e estou grata pela oportunidade que me foi dada.
Entretanto, tive um convite para ir dar aulas para Almada e lá fui eu de armas e bagagens até ao outro lado do rio. Do grupo inicial ainda contacto com uma aluna que me acompanhou até Lisboa. Começámos num estúdio de “Ballet” e quando este acabou passámos para outra sala emprestada que não era a ideal e até essa acabou. Perante tantas dificuldades, achei por bem não voltar a dar aulas em Almada enquanto não tivesse as condições adequadas. De vez em quando uma das alunas chamava-me para ir ver uma sala, mas o que aconteceu foi o meu marido entrar ao barulho e decidir que o melhor era arranjarmos um sítio próprio e nosso. Foi assim que nasceu o “Satsanga”. Não foi tarefa fácil porque os dinheiros não abundavam e as facilidades bancárias tão pouco. Por fim, encontrámos o que nos servia e em 3 de Outubro de 1983 inaugurámos um espaço que foi a nossa casa até 1987. Nas fotos acima, podem ver aspectos dessa cerimónia simples. O rapaz que está com papéis na mão foi o autor do logotipo e mais tarde, o Suami Sivayotir consagrou aquele espaço tornando-o espiritual como é até hoje.
A partir de 1985 comecei a levar pessoas a Espanha para tirarem o curso de Instrutores. O meu marido e eu também vivemos essa experiência durante quatro semanas. Não sei precisar quantos foram, mas posso dizer que dos que se formaram mais de metade dão aulas por aqui e por ali. Em 1989, organizámos o curso no Algarve, tendo participado um grupo de espanhóis. Algumas da instrutoras que se formaram em Espanha, deram aulas no “Satsanga”. Uma delas trabalha comigo desde então. Consolidada a experiência, passei eu a fazer a formação, ao meu próprio estilo que tem a ver com a ideia base duma ligação Mestre/Discípulo. Começam por ser praticantes dedicados e, se encaixarem nesta vibração e tiverem inclinação e vontade, poderão dar aulas no Centro, ao mesmo tempo que continuam com as suas práticas e os seus estudos. Um Instrutor, como nós o entendemos, tem muita responsabilidade e é preciso que esteja bem preparado para saber lidar com o corpo, a mente e o espírito dos que se apresentam como iniciantes.
As viagens a Espanha foram um meio extraordinário para o conhecimento do Yoga Integral ou de Síntese (segundo Sivananda), mas principalmente para nos conhecermos e tomarmos consciência do quão difíceis são os relacionamentos humanos, apesar de toda a sua riqueza. Fizeram-se e desfizeram-se amizades, alimentámos ilusões e aceitámos desilusões como acontece sempre nestas coisas da vida em grupo. Para além da filosofia e da prática do Yoga, aprendi muitíssimo sobre comportamentos e gerência de grupos. É preciso não esquecer que comecei nestas andanças sem saber ler nem escrever... Uma dona de casa, mãe de família, empurrada para esquemas e trabalhos que transcendiam a sua capacidade e preparação, assim fui eu levada a fazer coisas que nunca me tinham passado pela cabeça! Foram anos de muito trabalho, muito esforço, muita alegria e satisfação pelos resultados obtidos. Até hoje! As ajudas chegaram sempre a tempo porque o espírito de solidariedade mantinha-se ao mais alto nível. Nada do que fiz poderia ter sido feito sem a colaboração dos meus alunos, da minha família e dos que se formaram como instrutores. A família foi-se integrando no projecto naturalmente, aceitando as minhas “loucuras” sem pestanejar. O Yoga é sobretudo prática nas acções de cada dia. Não é só ginástica, nem só meditação como algumas pessoas pensam ou julgam. A palavra significa “harmonia” e por aí se pode perceber que um estado de harmonia se pode atingir de várias maneiras, sendo o exercício uma delas, tal como a meditação e uma atitude positiva que em nada tem a ver com andar sempre bem disposto. Uma atitude positiva é aquela em que fazemos o que nos faz sentir bem e apesar das dificuldades, mantemos a esperança bem viva.
Com casa própria, começámos uma etapa em que tivemos de esperar o inesperado a todo o pé de passada.

Fiquem bem!

segunda-feira, junho 19, 2006

TEMPO DE LUTA, TEMPO DE CONQUISTA

Como o tempo “não” existe, não me tenho preocupado em demasia com a ordem cronológica dos acontecimentos porque, à medida que as memórias desfilam no meu Ser e no meu Estar, tento ver as situações com uma certa distância, alguma emoção e desapego pois o tempo também nos dá outra medida e outros olhares.
Quando vos disse que, depois da viagem, se seguiram tempos difíceis, não estava a pintar as coisas demasiadamente escuras. A verdade é que a descoberta do Yoga fez com que se desse uma revolução em mim pois comecei a ter mais consciência do que era e como era a minha verdade e ao mesmo tempo que tentava acompanhar o crescimento dos meus filhos que estavam em adolescência aguda, todos ao mesmo tempo!!! Desequilíbrios de vária ordem que, várias vezes, me tiraram do sério... Lidar com uma família em crescimento acelerado, num tempo em que as portas de Portugal se abriram à Liberdade, foi tarefa ciclópica, com resultados nem sempre da melhor qualidade. Não vou entrar pelos caminhos do julgamento porque, de uma coisa estou certa, fiz/fizemos o que podíamos e o que sabíamos para levar a vida com a dignidade possível e a união do grupo familiar num estado desejável. Não foi fácil, nada fácil!!! Volto a dizer que o Yoga foi, para além de muleta, uma ferramenta extraordinária que me permitiu não desistir de continuar em frente, mesmo quando as forças me faltavam. É claro que vivemos, igualmente, momentos de alegria e de esperança que nos compensavam de algum modo e nos davam alento para não soçobrar ao peso das separações temporárias e definitivas. O meu filho mais velho casou-se, a minha filha mais nova deu por finda a sua caminhada pela vida (vide “LUZ, APESAR DAS SOMBRAS”, em Abril). A morte dum jovem dificilmente é compreendida, quando não se encontra motivo suficientemente óbvio para tal opção. Confesso que levei muito tempo a aceitar e a respeitar a sua vontade, mas continuo sem compreender. Com a filosofia do Yoga e todas as práticas a ele associadas, encontrei a paz de espírito necessária para não cair em depressão ou revolta. Hoje, consigo aceitar que há pessoas que escolheram caminhos para os quais não estavam preparados ou não tiveram as condições necessárias para o poderem fazer da melhor maneira e, por isso, escolheram voltar atrás, esperando por outra oportunidade. Viver na matéria não é pêra doce e também há que contar com o livre arbítrio que nos permite liberdade condicionada, mas liberdade para todos os efeitos. A morte, sejam quais forem as circunstâncias e os motivos, perturba-nos sempre porque vivemos na ilusão da eternidade que, aparentemente, se manifesta no corpo físico, o que nos confunde e assusta quando tal acontece. Nós, de facto, somos eternos, o corpo é a roupagem que temos de vestir para fazermos a passagem por esta Terra que voga no espaço, indiferente aos nossos gostos e desgostos, um mistério deveras insondável cá para mim que, sinceramente, não percebo o que aconteceu para aqui virmos parar, a fazer o que estamos a fazer e a ser o que somos, para o bem e para o mal. Aconteceu por acaso ou foi intencional? Acidentes de percurso na ordem cósmica ou um Deus que resolveu fazer experiências?... A cada um a sua resposta.
As minhas estórias vão entrar num capítulo em que a comunidade “Satsanga” faz a sua aparição. Tenho muito que contar!
Fiquem bem!

quarta-feira, junho 14, 2006

REGRESSO

A paragem em Bombaim foi de algumas horas o que deu para mais algumas compras. Eu, por exemplo, tive de adquirir uma mala para conseguir encaixar o que trazia e o que ainda comprei. As coisas são baratíssimas e uma tentação pela originalidade e, além disso, nós temos o costume de levar lembranças para a família. Nesse tempo não havia por cá o que há agora, é preciso que se note. Jantámos onde calhou, mas eu não estava muito bem disposta; os balanços do comboio fizeram-me enjoar quando poisei os pés em terra. Foram muitas horas com pouco descanso.
Depois do jantar começámos a aventura da viagem para o aeroporto. Tínhamos deixado as malas na estação e de lá seguimos, tendo apanhado pelo caminho os festejos do dia de “São” Ganesha. Parecia Carnaval. Grupos de gente empunhando estátuas do deus todo enfeitado, cantavam, dançavam e atiravam “kum-kum” (pó vermelho para dar sorte) uns aos outros. Ao princípio achámos graça, mas a demora do trânsito tornou-se cansativa por causa do pó e do calor. No aeroporto aguardava-nos uma longa espera. Felizmente a zona de embarque era limpa e fresca. Deixámos Bombaim com chuva torrencial, um pouco antes das duas da madrugada.
Logo que acabei de comer o jantar, enrosquei-me o melhor que pude na cadeira e tentei passar pelas brasas, apesar do desconforto e da falta de espaço. Dores no pescoço, perna dormente, uma constante, com a agravante de o avião estar dividido no sentido do comprimento para separar fumadores e não fumadores o que significa ter-me calhado ficar ao meio, ou seja, ter apanhado um fumante como vizinho!!! No fim da viagem trouxe para casa um papel que a hospedeira me deu para fazer a reclamação, à qual me responderam mais tarde dizendo que estavam a estudar o assunto. Como era a Lufthansa, é natural que se tenham dado ao trabalho de resolver a situação.
Estávamos cada vez mais perto de casa e do fim da nossa viagem que nos tinha parecido um sonho irrealizável. Os meus companheiros foram magníficos e funcionámos sempre como um grupo unido. Em Frankfurt, passámos horas sem fim, a passear de um lado para o outro e a observar as pessoas que por lá andavam, de todas as cores e feitios. Ainda deu para, por fim, falar para casa para saber se estavam todos bem e a anunciar a minha/nossa chegada de madrugada. O resto da viagem não tem estória, mas a próxima etapa da minha vida já tem algumas. Agradeço ao meu diário a oportunidade de reviver tantas experiências interessantes que jamais esquecerei e que partilhei convosco de bom grado. Os tempos que se seguiram foram difíceis, muito difíceis mesmo, mas contei sempre com o apoio da família, dos amigos e dos alunos que já formavam um grupo consistente e devotado. As dificuldades são a nossa grande escola e a vida é de guerreiros e descobridores!!!

Fiquem bem!

segunda-feira, junho 12, 2006

ÚLTIMOS CARTUCHOS

Chegámos ao último dia de estadia em terreno sagrado. Acordei cedo como sempre e tive de esperar que os meus amigos dessem à costa para tomarmos o pequeno-almoço. Enquanto esperava por eles, quem deu à costa foi o sr. Singh com dois rapazes amigos e curiosos. Fizeram-me companhia e lá estivemos a conversar, com o sr. Singh a fazer de interprete. Falámos de tudo um pouco, expliquei-lhes como era e onde era Portugal, como era a nossa cultura e a nossa religião, etc. Logo que nos despachámos, seguimos para o Ashram do Sai Baba, um mestre muito conhecido tanto lá como no Ocidente. A casa era uma moradia muito bem arranjada e tinha um guarda visto não estar lá ninguém. Como nada de interesse se passasse ali, seguimos em direcção à floresta, atravessando a ponte virámos a montante. Embrenhámo-nos floresta dentro e logo começámos a transpirar. A sensação de estar numa floresta densa, onde o Sol não penetra, é estranha e, de certo modo claustrofóbica. Visitámos uma gruta onde era suposto estar um yogui a meditar e mais à frente chegámos a um pequeno Ashram onde fomos recebidos por um yogui mal encarado que não nos passou cartão. O nosso guia lá foi comentando que aquele não era o sítio onde ele nos queria levar, mas que naquela altura do ano muitos vão dar uma volta por causa da monção. Também ficámos a saber que há yoguis e yoguis... ou seja, nem todos têm competência para o ser e, segundo o sr. Singh, alguns não passam de tontos que se fingem muito evoluídos!
Como o calor apertava demasiado, resolvemos voltar para o hotel. A minha amiga ainda não estava totalmente recuperada da gripe com tantas andanças e com um clima pouco saudável. À tardinha fomos até Rishikesh para fazer as últimas compras e, uma vez mais, ficámos impressionados com a imundície do lugar, apesar de ter um hotel um bocadinho melhor do que o nosso. Voltámos mesmo a tempo de apanhar a chuvada das seis da tarde (chovia sempre a horas certas...). Antes do jantar ainda fiz as malas que, com tanta quinquilharia, estava cheia que nem um ovo. E, assim, nos fomos despedindo de um lugar mágico, apesar de todas as contradições. Na manhã seguinte, abri a janela para gozar pela última vez o panorama do rio. Arrumei o que faltava, sentei-me a meditar e, antes de sairmos, ainda fui dar os últimos trocos aos velhos e aleijados e despedir-me da ponte suspensa. Tirámos uma foto com os nossos amigos e lá seguimos de táxi para Rishikesh, passando pelo Centro de Yoga do mestre que não tínhamos encontrado à chegada. A viagem para Deli foi longa como de costume, mas a camioneta não era má de todo.
A meio do trajecto, o meu companheiro de viagem (não esquecer que, pelo facto de estar sozinha, apanho sempre companhias diferentes...) meteu conversa comigo com a pergunta sacramental: “De que país é?”. A partir daí, falámos de tudo, desde relações familiares, casamento, yoga, religião, reeencarnação, etc., e até me leu as palmas da mão que é coisa vulgar por estas paragens. Foi uma boa companhia e mais uma achega para conhecer aquela cultura tão diferente da nossa. Chegámos a Deli a meio da tarde e lá nos instalámos num bom hotel, o que nos soube a pouco! Depois dum banho e algum descanso, fomos jantar num restaurante, daqueles do tempo dos ingleses, com orquestra e tudo! A comida não era grande coisa, mas a música e o ambiente compensaram. De regresso ao hotel ainda passámos pelos correios que, curiosamente, estavam abertos àquela hora. Queríamos entrar em contacto com a família, mas não foi possível encontrar ninguém em casa (a diferença de cinco horas complica estas cenas).
No dia seguinte começámos a “guerra” para a compra dos bilhetes do comboio, uma luta difícil de vencer porque nos diziam que não havia bilhetes para o comboio que queríamos, que era o expresso. Não podem imaginar a burocracia que foi preciso para, ao fim de três horas, arranjarmos os ditos bilhetes que, infelizmente, não eram para o expresso que levaria muito menos horas até Bombaim. O problema é que não dava para esperar por outro pois tínhamos de apanhar o avião para Lisboa. No hotel ainda comprei uns livros de yoga e dei umas dicas ao dono da livraria que se queixava de dores nas costas. Ele disse-me que, na Índia, muito pouca gente praticava yoga, o que já tínhamos percebido ao longo desta viagem.
Na estadia em Nova Deli, ainda deu para darmos umas voltas para conhecer a cidade e arredores como verdadeiros turistas e ainda acabámos, como de costume, num armazém onde nos cruzámos com uns portugueses e, por acaso, um dos senhores conhecia o meu marido!!! Há portugueses em todo o lado... Nessa noite fomos assistir a um bailado clássico indiano, cuja segunda parte nos entusiasmou bastante, ficando para sempre na nossa memória a beleza e a arte.
Arrumadas as malas, lá partimos no dia seguinte para a estação dos comboios onde tivemos de esperar um bom bocado, suportando o calor do costume. Mal chegámos, fomos “atacados” pelos carregadores que lutam entre si para levar o maior número de malas, autênticas bestas de carga!... Lá nos instalámos numa carruagem nova com ar condicionado; o nosso compartimento tinha quatro beliches. Perto de nós seguiam dois rapazes, um europeu, outro indiano que se transformou em nosso protector e intérprete. Logo que o comboio se pôs em marcha, começaram a servir chá e bebidas frescas e tivemos a oportunidade de encomendar o jantar que, diga-se de passagem, não dava alegria a ninguém. O resto da viagem safámo-nos com a fruta do costume. À noite, alugámos umas mantas para conseguirmos dormir sem gelar. Não dormimos grande coisa, mas sempre é melhor ir de pernas esticadas numa longuíssima viagem como aquela. Uma aventura mais a juntar a todas as outras que vivemos durante três semanas.
Ao fim de vinte e quatro horas de convívio e impaciência, lá desembarcámos uma vez mais, em Bombaim, ponto de chegada, ponto de partida.
Fiquem bem!

quinta-feira, junho 08, 2006

NOVAS VISITAS

À tarde fomos então com o nosso guia visitar o Ashram do Maharish Mahesh que é o “Guru” da Meditação Transcendental. Metade do caminho era semelhante ao daquele em que fizemos a visita ao yogui da montanha, mas a certa altura atravessámos uma denssíssima floresta, linda, linda. O calor é que era sufocante e o suor corria-nos em bica. Ao chegarmos, ainda tivemos de subir uma grande rampa e, no fim, não nos deixaram entrar. Uma barreira de rapazes logo se impôs, dizendo que não era permitida a entrada sem uma licença especial. Por favor, deixaram que visitássemos um exemplar das cabanas próprias para meditar, do tipo “iglo”, com dois andares; em baixo o quarto, lá em cima o espaço suficiente para se ficar sentado e uma casa de banho lá fora. Via-se que havia uma certa pretensão na ideia, coisa do tempo em que os “Beatles” iam à Índia à procura de inspiração. Aliás foram eles que levaram o dito Guru para a América, que lá se está bem melhor do que na Índia... O que ficou estava entregue à bicharada.
Terminado este contacto elucidativo, descemos até ao rio para descansar e refrescar as ideias e ali permanecemos numa espécie de praia a ver a água a correr em alta velocidade e os monges a tomarem o seu banho de mergulho e tudo... Estava, também, um homem que, depois do seu banho, permaneceu em meditação imperturbável (vide a foto do texto “ENCONTROS IMEDIATOS”). Preparámo-nos para o regresso, sempre à beira rio, mas o sr. Singh ainda nos quis mostrar mais um Ashram, segundo ele, frequentado por muitos estrangeiros. Acabámos por ficar lá algum tempo porque, entretanto, desatou a chover torrencialmente. Logo que abrandou metemo-nos a caminho e passámos por outro Ashram muito grande onde morava o nosso guia. Lá dentro havia um mercado com boas lojas onde encontrámos colchas iguais às que comprámos em Jaipur por metade do preço!... É incrível como podem vender as coisas tão baratas... sem esquecer que aquela gente ganha miseravelmente!!!
Apanhámos um táxi de volta a casa, já noite escura e com o nosso amigo Ramu pronto para nos servir o jantar. O marido da minha amiga começava a dar mostras de saturação e, por isso, a ficar chato; estas coisas não é para quem quer, é para quem gosta. Ainda ficámos outro dia antes de seguirmos para Deli e de Deli para Bombaim afim de apanharmos o avião para Lisboa. Infelizmente a viagem de regresso foi feita em duas etapas: camioneta até Deli e comboio até Bombaim. Apesar das saudades que tinha de casa e da família, não estava propriamente entusiasmada com o regresso, onde me esperavam alguns problemas de ordem afectiva. Os tempos estavam bem difíceis para mim. Curiosamente, o nosso amigo Singh, antes de se despedir, disse-me, “You are no simple woman” (“Não és uma mulher qualquer”) e que havia de viver muitos anos e ter uma grande missão, coisa que já estava farta de ouvir... sem ligar nenhuma. Com os meus botões pensei que tinha de ter paciência e esperar para ver. Naquela altura estava bem longe de saber o caminho por onde o Yoga me iria levar. Passados estes anos (nada mais, nada menos do que 25!!!), acredito que a tal grande missão que me coube foi o auto-conhecimento e abrir as portas da consciência àqueles que de mim se aproximam e a quem, de alguma maneira, toco. Através dos outros e com os outros, tenho aprendido o que nunca pensei aprender, sobretudo sobre mim própria. Estou grata aos deuses pelas oportunidades que me foram proporcionadas e espero continuar merecedora delas.
Para terminar esta estória de hoje, vou-lhes falar duma profissão que havia naquele lugar (se calhar continua a haver), relacionada com os pedintes: “vendedor de trocos”!!! Como é de bom tom dar esmola, havia umas bancadas onde nos trocavam rupias por cêntimos ou “tostões”. Cada rupia dava 90 “cêntimos”, o lucro deles: 10 cêntimos. Todos os dias, trocávamos ¾ para distribuirmos as moedinhas (que nem sequer estavam a uso) pelos pobres que se encontravam à beira do caminho até ao rio e que, por sua vez, trocavam no vendedor de trocos Um costume que limpa algum Karma, digo eu...
Fiquem bem!

segunda-feira, junho 05, 2006

CERIMÓNIA (PUJA)

E, assim, fomos avançando na nossa viagem ao tempo de mestres e discípulos, uma etapa que se tornou num prenúncio da minha orientação futura em termos de prática e ensino. Naquela época éramos um tanto ou quanto autodidactas, apesar da frequência dos vários cursos em Inglaterra e País de Gales. A mim faltava-me um método que me permitisse dar um sentido mais consistente à minha maneira de ensinar e viver a própria experiência do Yoga e o contacto com os ensinamentos de Sivananda tornou-se marcante, principalmente, quando comecei a ler os seus escritos e, mais tarde, ao encontrar-me com um grupo dirigido por um dos seus discípulos, o que vos contarei a devido tempo. Rumámos até ao Ashram do mestre Sivananda para assistirmos às cerimónias do Ganesha Puja (louvor ao deus Ganesha), à beira do rio Ganges. Estava um belo dia, segundo me diz o meu diário, a prometer bastante calor. Quando chegámos, ainda estava pouca gente no sítio onde se encontrava uma imagem de Ganesha, considerado o deus da boa sorte. Os sacerdotes preparavam as coisas, ao mesmo tempo que iam cantando lenga-lengas e, pelo meio dando ordens ou dizendo piadas. Entretanto chegou a amiga que tínhamos conhecido na biblioteca na anterior visita e aproveitámos a sua companhia para irmos obtendo algumas explicações sobre o que ali se ia passando. Ela deu-nos a entender que tínhamos tido muita sorte pois aquela cerimónia nem sempre se fazia e, naquele dia, estava a ser feita porque o presidente da Associação partiria no dia seguinte para a Suissa e era uma maneira de lhe desejar boa viagem.
Entretanto, o deus ia sendo lavado com água do Ganges e a seguir deitavam-lhe por cima várias ofertas: leite de coco, bananas, etc. Parte dessas dádivas eram postas de lado e, enquanto elas continuassem a cair, a cantoria e as rezas continuavam; tudo isto se passava com um grande à vontade e muita alegria. Como vimos que a coisa ainda demorava, fomos até ao escritório do Suami principal acompanhados por uma francesa que passava metade do tempo ali e a outra em França. Infelizmente o senhor não estava disponível e por isso voltámos para a cerimónia afim de participar no Arati final e no Prasad, não sem antes termos visitado a livraria para comprar alguns livros que nos foram enviados de barco, o que foi um grande alívio em termos de peso na bagagem.
Esta parte final foi interessante: um rapaz andava com uma lamparina acesa e ia passando pela assistência que passava as mãos pela chama que, depois, levavam à cabeça e à cara num acto simbólico de purificação pelo fogo e, claro, não dispensavam a respectiva esmola como nas nossas missas. No fim houve distribuição de Prasad, que nos pareceu ser semelhante à nossa comunhão. Toda a fruta oferecida tinha sido cortada aos bocados, o mesmo sucedendo com os doces que nunca faltam nestas coisas. Terminada a cerimónia, lavámos as mãos no rio e, pela primeira vez, tirámos os sapatos e molhámos os pés. A água estava muito fresquinha e soube-nos bem. O marido da minha amiga também não resistiu a fazer o mesmo. Tirei-lhe uma fotografia para documentar este facto histórico uma vez que ele é muito picuinhas e não se deixava levar pelas circunstâncias com facilidade, apesar do esforço que fazia para seguir na nossa onda.
Chegada a hora do almoço, fizemo-nos convidados e lá seguimos para o Ashram. A sala tinha duas toalhas compridas postas no chão, homens dum lado, mulheres do outro e, uma vez mais, a comer com as mãos como mandam as regras. Ficámos cheias de curiosidade para assistir à reacção do marido dela que não é, propriamente, especialista a comer sem ser de garfo e faca! Nem nos atrevíamos a olhar para ele não nos fossemos desmanchar a rir. Antes da refeição houve, novamente, cânticos e o almoço lá seguiu de forma muito disciplinada. Havia um chefe de sala que ordenava às mulheres para irem servindo quem quisesse repetir a dose (não podíamos deixar nada no prato, por isso nos punham pouca comida de cada vez). A refeição foi farta, mas não muito saborosa (não usam nem alho, nem cebola que consideram prejudicial à meditação por serem excitantes). Terminado o almoço, fomos saindo em fila indiana até a um grande lavatório onde lavámos as mãos e a loiça, com água e cinza que o sabão, além de não ser ecológico é raro naquelas paragens. Mal chegámos à rua, desatámos a rir com os comentários que ele fez: “Isto foi o máximo, não me apanham noutra!”. Depois do almoço as actividades foram interrompidas para descanso e, por essa razão, marchámos até Rishikesh afim de procurarmos um Suami, mestre dum amigo nosso que tinha mandado uma encomenda. Demorámos a encontrar a casita onde ele morava e dava instrução aos seus discípulos e a que chamava Centro de Yoga; infelizmente não estava ninguém. Um vizinho informou-nos que ele estaria em Nova Deli. Regressámos ao nosso hotel de táxi porque o calor já apertava e estávamos desejosos de por as pernas ao fresco. Tinha sido uma manhã cheia de emoções e coisas novas, precisávamos de digerir todas as informações e sensações.
Seguem mais visitas….

Fiquem bem!