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segunda-feira, junho 12, 2006

ÚLTIMOS CARTUCHOS

Chegámos ao último dia de estadia em terreno sagrado. Acordei cedo como sempre e tive de esperar que os meus amigos dessem à costa para tomarmos o pequeno-almoço. Enquanto esperava por eles, quem deu à costa foi o sr. Singh com dois rapazes amigos e curiosos. Fizeram-me companhia e lá estivemos a conversar, com o sr. Singh a fazer de interprete. Falámos de tudo um pouco, expliquei-lhes como era e onde era Portugal, como era a nossa cultura e a nossa religião, etc. Logo que nos despachámos, seguimos para o Ashram do Sai Baba, um mestre muito conhecido tanto lá como no Ocidente. A casa era uma moradia muito bem arranjada e tinha um guarda visto não estar lá ninguém. Como nada de interesse se passasse ali, seguimos em direcção à floresta, atravessando a ponte virámos a montante. Embrenhámo-nos floresta dentro e logo começámos a transpirar. A sensação de estar numa floresta densa, onde o Sol não penetra, é estranha e, de certo modo claustrofóbica. Visitámos uma gruta onde era suposto estar um yogui a meditar e mais à frente chegámos a um pequeno Ashram onde fomos recebidos por um yogui mal encarado que não nos passou cartão. O nosso guia lá foi comentando que aquele não era o sítio onde ele nos queria levar, mas que naquela altura do ano muitos vão dar uma volta por causa da monção. Também ficámos a saber que há yoguis e yoguis... ou seja, nem todos têm competência para o ser e, segundo o sr. Singh, alguns não passam de tontos que se fingem muito evoluídos!
Como o calor apertava demasiado, resolvemos voltar para o hotel. A minha amiga ainda não estava totalmente recuperada da gripe com tantas andanças e com um clima pouco saudável. À tardinha fomos até Rishikesh para fazer as últimas compras e, uma vez mais, ficámos impressionados com a imundície do lugar, apesar de ter um hotel um bocadinho melhor do que o nosso. Voltámos mesmo a tempo de apanhar a chuvada das seis da tarde (chovia sempre a horas certas...). Antes do jantar ainda fiz as malas que, com tanta quinquilharia, estava cheia que nem um ovo. E, assim, nos fomos despedindo de um lugar mágico, apesar de todas as contradições. Na manhã seguinte, abri a janela para gozar pela última vez o panorama do rio. Arrumei o que faltava, sentei-me a meditar e, antes de sairmos, ainda fui dar os últimos trocos aos velhos e aleijados e despedir-me da ponte suspensa. Tirámos uma foto com os nossos amigos e lá seguimos de táxi para Rishikesh, passando pelo Centro de Yoga do mestre que não tínhamos encontrado à chegada. A viagem para Deli foi longa como de costume, mas a camioneta não era má de todo.
A meio do trajecto, o meu companheiro de viagem (não esquecer que, pelo facto de estar sozinha, apanho sempre companhias diferentes...) meteu conversa comigo com a pergunta sacramental: “De que país é?”. A partir daí, falámos de tudo, desde relações familiares, casamento, yoga, religião, reeencarnação, etc., e até me leu as palmas da mão que é coisa vulgar por estas paragens. Foi uma boa companhia e mais uma achega para conhecer aquela cultura tão diferente da nossa. Chegámos a Deli a meio da tarde e lá nos instalámos num bom hotel, o que nos soube a pouco! Depois dum banho e algum descanso, fomos jantar num restaurante, daqueles do tempo dos ingleses, com orquestra e tudo! A comida não era grande coisa, mas a música e o ambiente compensaram. De regresso ao hotel ainda passámos pelos correios que, curiosamente, estavam abertos àquela hora. Queríamos entrar em contacto com a família, mas não foi possível encontrar ninguém em casa (a diferença de cinco horas complica estas cenas).
No dia seguinte começámos a “guerra” para a compra dos bilhetes do comboio, uma luta difícil de vencer porque nos diziam que não havia bilhetes para o comboio que queríamos, que era o expresso. Não podem imaginar a burocracia que foi preciso para, ao fim de três horas, arranjarmos os ditos bilhetes que, infelizmente, não eram para o expresso que levaria muito menos horas até Bombaim. O problema é que não dava para esperar por outro pois tínhamos de apanhar o avião para Lisboa. No hotel ainda comprei uns livros de yoga e dei umas dicas ao dono da livraria que se queixava de dores nas costas. Ele disse-me que, na Índia, muito pouca gente praticava yoga, o que já tínhamos percebido ao longo desta viagem.
Na estadia em Nova Deli, ainda deu para darmos umas voltas para conhecer a cidade e arredores como verdadeiros turistas e ainda acabámos, como de costume, num armazém onde nos cruzámos com uns portugueses e, por acaso, um dos senhores conhecia o meu marido!!! Há portugueses em todo o lado... Nessa noite fomos assistir a um bailado clássico indiano, cuja segunda parte nos entusiasmou bastante, ficando para sempre na nossa memória a beleza e a arte.
Arrumadas as malas, lá partimos no dia seguinte para a estação dos comboios onde tivemos de esperar um bom bocado, suportando o calor do costume. Mal chegámos, fomos “atacados” pelos carregadores que lutam entre si para levar o maior número de malas, autênticas bestas de carga!... Lá nos instalámos numa carruagem nova com ar condicionado; o nosso compartimento tinha quatro beliches. Perto de nós seguiam dois rapazes, um europeu, outro indiano que se transformou em nosso protector e intérprete. Logo que o comboio se pôs em marcha, começaram a servir chá e bebidas frescas e tivemos a oportunidade de encomendar o jantar que, diga-se de passagem, não dava alegria a ninguém. O resto da viagem safámo-nos com a fruta do costume. À noite, alugámos umas mantas para conseguirmos dormir sem gelar. Não dormimos grande coisa, mas sempre é melhor ir de pernas esticadas numa longuíssima viagem como aquela. Uma aventura mais a juntar a todas as outras que vivemos durante três semanas.
Ao fim de vinte e quatro horas de convívio e impaciência, lá desembarcámos uma vez mais, em Bombaim, ponto de chegada, ponto de partida.
Fiquem bem!

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