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quinta-feira, junho 22, 2006

DE CAIXEIRO VIAJANTE À CASA PRÓPRIA








A minha primeira experiência como uma verdadeira Instrutora de Yoga, deu-se quando decidi arriscar oferecendo os meus serviços ao Clube Atlético de Alvalade. Uma amiga fazia lá ginástica e disse-me que não tinham aulas de Yoga, por isso, resolvi apresentar-me à direcção do clube que se mostrou muito interessada. Nesse tempo o clube era muito modesto e gerido por carolas o que me agradou logo. O espaço que encontrámos não era a última maravilha.... um sala onde se faziam trabalhos de pintura decorativa, chão de cimento e com um acesso complicado (tinha de se passar pela sala de “ballet”). Mas, como a vontade de começar era muita, aceitei o desafio e começámos com cobertores no chão, um candeeiro de bicha e o aquecimento, tudo coisas que trouxe de casa. Apesar das condições precárias, começaram a aparecer alunos (mais alunas, claro!) e o entusiasmo pegou de tal maneira que, no ano seguinte, alcatifaram a sala. Duas das primeiras alunas, fizeram-se instrutoras e uma delas, apesar dos seus 81 anos, ainda dá aulas. Por lá fiquei até à formação do Centro de Yoga da minha amiga para onde também foram a maioria dos meus alunos. Guardo óptimas recordações desse tempo e estou grata pela oportunidade que me foi dada.
Entretanto, tive um convite para ir dar aulas para Almada e lá fui eu de armas e bagagens até ao outro lado do rio. Do grupo inicial ainda contacto com uma aluna que me acompanhou até Lisboa. Começámos num estúdio de “Ballet” e quando este acabou passámos para outra sala emprestada que não era a ideal e até essa acabou. Perante tantas dificuldades, achei por bem não voltar a dar aulas em Almada enquanto não tivesse as condições adequadas. De vez em quando uma das alunas chamava-me para ir ver uma sala, mas o que aconteceu foi o meu marido entrar ao barulho e decidir que o melhor era arranjarmos um sítio próprio e nosso. Foi assim que nasceu o “Satsanga”. Não foi tarefa fácil porque os dinheiros não abundavam e as facilidades bancárias tão pouco. Por fim, encontrámos o que nos servia e em 3 de Outubro de 1983 inaugurámos um espaço que foi a nossa casa até 1987. Nas fotos acima, podem ver aspectos dessa cerimónia simples. O rapaz que está com papéis na mão foi o autor do logotipo e mais tarde, o Suami Sivayotir consagrou aquele espaço tornando-o espiritual como é até hoje.
A partir de 1985 comecei a levar pessoas a Espanha para tirarem o curso de Instrutores. O meu marido e eu também vivemos essa experiência durante quatro semanas. Não sei precisar quantos foram, mas posso dizer que dos que se formaram mais de metade dão aulas por aqui e por ali. Em 1989, organizámos o curso no Algarve, tendo participado um grupo de espanhóis. Algumas da instrutoras que se formaram em Espanha, deram aulas no “Satsanga”. Uma delas trabalha comigo desde então. Consolidada a experiência, passei eu a fazer a formação, ao meu próprio estilo que tem a ver com a ideia base duma ligação Mestre/Discípulo. Começam por ser praticantes dedicados e, se encaixarem nesta vibração e tiverem inclinação e vontade, poderão dar aulas no Centro, ao mesmo tempo que continuam com as suas práticas e os seus estudos. Um Instrutor, como nós o entendemos, tem muita responsabilidade e é preciso que esteja bem preparado para saber lidar com o corpo, a mente e o espírito dos que se apresentam como iniciantes.
As viagens a Espanha foram um meio extraordinário para o conhecimento do Yoga Integral ou de Síntese (segundo Sivananda), mas principalmente para nos conhecermos e tomarmos consciência do quão difíceis são os relacionamentos humanos, apesar de toda a sua riqueza. Fizeram-se e desfizeram-se amizades, alimentámos ilusões e aceitámos desilusões como acontece sempre nestas coisas da vida em grupo. Para além da filosofia e da prática do Yoga, aprendi muitíssimo sobre comportamentos e gerência de grupos. É preciso não esquecer que comecei nestas andanças sem saber ler nem escrever... Uma dona de casa, mãe de família, empurrada para esquemas e trabalhos que transcendiam a sua capacidade e preparação, assim fui eu levada a fazer coisas que nunca me tinham passado pela cabeça! Foram anos de muito trabalho, muito esforço, muita alegria e satisfação pelos resultados obtidos. Até hoje! As ajudas chegaram sempre a tempo porque o espírito de solidariedade mantinha-se ao mais alto nível. Nada do que fiz poderia ter sido feito sem a colaboração dos meus alunos, da minha família e dos que se formaram como instrutores. A família foi-se integrando no projecto naturalmente, aceitando as minhas “loucuras” sem pestanejar. O Yoga é sobretudo prática nas acções de cada dia. Não é só ginástica, nem só meditação como algumas pessoas pensam ou julgam. A palavra significa “harmonia” e por aí se pode perceber que um estado de harmonia se pode atingir de várias maneiras, sendo o exercício uma delas, tal como a meditação e uma atitude positiva que em nada tem a ver com andar sempre bem disposto. Uma atitude positiva é aquela em que fazemos o que nos faz sentir bem e apesar das dificuldades, mantemos a esperança bem viva.
Com casa própria, começámos uma etapa em que tivemos de esperar o inesperado a todo o pé de passada.

Fiquem bem!

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